A estranha beleza de 'Barulho feio'

Quinto álbum solo de Romulo Fróes investiga a experiência contemporânea de se ouvir música


Felipe Tringoni Música

12/09/14 21:35 - Atualizado em 12/09/14 21:53

Romulo Fróes (Foto: Fernando Eduardo)

Canções densas, lentas e profundas. Um disco difícil, arrastado, sem intervalos entre as faixas. O título: Barulho feio. Em seu quinto registro solo, recém-lançado, Romulo Fróes radicaliza. E explora os limites de sua música em busca de reações – algo cada vez mais raro em tempos de smartphones, redes sociais, e-mail, TV, tudo ao mesmo tempo agora.

Romulo reduziu o passo. Colocou violão e voz à frente das canções e se cercou de um instrumental livre e mínimo. A guitarra de Guilherme Held, o baixo acústico de Marcelo Cabral e o sax de Thiago França formam o corpo da maior parte do álbum e intervém de maneira nada convencional. "Se a pessoa for capturada, ela vai ter que ficar quieta pra ouvir", conta.



A abordagem experimental, quase investigativa de até onde se consegue levar uma canção, tem origem no núcleo de composição formado por Fróes e pelos artistas plásticos Nuno Ramos (com quem trabalhou por 16 anos) e Clima, coautores de grande parte das faixas. "Somos três não-músicos de formação. Tocamos violão, mas não somos instrumentistas."

A isso, o cantor e compositor acrescentou a amizade musical com sua "turma": Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Juçara Marçal, além dos já citados Cabral e França, músicos paulistanos que se combinaram e recombinaram em formações como Metá Metá, Passo Torto e aventuras solo, responsáveis por 20 álbuns gravados desde 2011. "Esse disco junta essas duas coisas: a minha experiência com os músicos extraordinários que tocam comigo, com esse desejo quase infantil de invenção e de gosto por arte, que Clima, Nuno e eu compartilhamos", diz.

E por que "Barulho feio"? Romulo explica.



Fróes diz que a inspiração inicial para o trabalho foi a faixa-título, que o levou a todas as outras. "É o primeiro disco da minha carreira que nasceu com um nome. Essa canção é o tema, manifesto do disco. Foi feita por mim e pelo Nuno na época da Bienal de 2010. A letra explica um pouco do que a gente viveu naquela época, a polêmica envolvendo o trabalho dos urubus [alvo de protestos de pichadores, jornalistas e militantes da causa animal, o trabalho Bandeira Branca, de Nuno Ramos, foi desmontado na 29ª Bienal de São Paulo por determinação do Ibama, que o havia autorizado]. A letra fala disso, é uma espécie de desabafo e tem um pessimismo em relação a fazer arte hoje em dia: ‘Ninguém cantará, ninguém pintará...’".




Outra marca do "barulho feio" de Romulo é a cama de sons das ruas de São Paulo sobre a qual se colocam as canções. Ao longo dos pouco mais de 43 minutos de duração do álbum, ouve-se ao fundo um sermão de pastor, uma mulher que reclama do governo, uma sanfona... Que se combinam ao instrumental. O músico comenta como surgiu essa ideia e como inseriu sua gravação de um "plano-sequência sonoro" no disco.



Ao mesmo tempo que investiga a experiência contemporânea de se ouvir música, Barulho feio clama por velhos modos de audição – o que, diz Romulo, o interessa muito. Prova disso é o relançamento de Calado, seu primeiro álbum, de 2004, no formato vinil, o que deve acontecer ainda neste ano. "De uma coisa eu tenho absoluta certeza: ele [vinil] te obriga a ouvir música de outro jeito. Você não consegue ouvir um disco acessando o Facebook". Seria o formato ideal também para o novo álbum, mas esse lançamento, por enquanto, não está nos planos do cantor.

Seja em mp3, no YouTube, em CD ou, no futuro, em vinil, ao final da audição, os expedientes lançados são bem-sucedidos: a beleza estranha de Barulho feio pega pelo pescoço e elimina a possibilidade de uma escuta desinteressada. "Isso pode causar apreço, tristeza, mas pode causar sono também... [risos]".

O álbum tem show de lançamento no dia 02 de outubro (quinta-feira) no Teatro do SESC Vila Mariana.
 

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