Paulo Freire

Livro apresenta a atualidade e a eloquência do pensamento de Paulo Freire 15 anos após sua morte.

João Luís de Almeida Machado Educação

07/03/12 15:19 - Atualizado em 07/03/12 15:20

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Paulo Reglus Neves Freire (1921-97) ocupou todos os espaços da imaginação dos educadores na década de 1970, como um verdadeiro Antonio, o Conselheiro, que os conclamava à denúncia e à luta. Sóbrio, com palavras duras e ousadas contra um regime mundial de injustiças, via na educação popular – escolar ou não – o caminho de superação libertária, da conscientização e da luta dos oprimidos. [ALMEIDA, Fernando José. Paulo Freire. São Paulo: Publifolha, 2010].

No dia 02 de maio de 1997 as luzes se apagavam em definitivo para Paulo Freire. O educador pernambucano, referência mundial, autor de clássicos como “Pedagogia do Oprimido” (1968), “Educação como prática da liberdade” (1965), “A importância do ato de ler” (1982) e “Pedagogia da Autonomia” (1997), entre outros títulos, que há 15 anos está ausente do cenário educacional e político, mantêm-se, no entanto, presente e atual através de suas ideias, realizações e propostas.
 
Mas quem foi e o que realizou Paulo Freire? O que trouxe em suas obras que constituíram base sólida para a educação? Qual o seu pensamento? Que referências o auxiliaram na construção de seu legado para a educação e a vida?
 
Ele foi um leitor e intelectual que se interessava pelas fontes teóricas mais progressistas de sua época. Também sua origem religiosa muito o influenciou: o catolicismo. Seria depois considerado um “católico radical de esquerda”, tendo conexão ideológica com o “nacional desenvolvimentismo”. [ALMEIDA, Fernando José. Paulo Freire. São Paulo: Publifolha, 2010].
 
Paulo nasceu em 1921, no intervalo entre as 2 grandes guerras mundiais, numa época em que o mundo viria a vivenciar uma de suas piores crises, num Brasil em que as oligarquias e seus coronéis eram mais do que uma simples referência, mas a própria relação configurada de poder estabelecido. Tendo nascido no nordeste brasileiro, viveu como protagonista e espectador a miséria do homem simples, do povo, alijado da dignidade que lhe é devida e que ficava evidenciada na fome, na pobreza, na seca, no desrespeito, na submissão e em tantos outros revezes que eram a eles impostos, entre os quais, o analfabetismo.
 
Colocados a margem do processo, os brasileiros não-cidadãos, excluídos, mobilizaram Freire a atuar em educação, apesar de sua formação em direito. Posteriormente a graduação, torna a pedagogia a força primordial de sua atuação em busca de maior justiça e dignidade para todos os brasileiros e também em realizações fora do país, com pensamento e ação embasados por expoentes da sociologia, filosofia, educação e cultura em geral.
 
De Anísio Teixeira a Karl Jaspers, de John Dewey a Hélio Jaguaribe, passando por Caio Prado Jr., Jean Paul-Sartre, Martin Heidegger e Albert Camus, entre outros e pautando-se em Jesus Cristo e Karl Marx, foi se consolidando dentro do intelectual firme e convicto, o desenho da obra futura que realizou em aulas, livros, palestras e em atuação política enfática em diferentes frentes e de acordo com as necessidades que se apresentavam.
 
Seu discurso foi sendo formado e se manteve coerente, coeso, crítico, ousado e focado no que acreditava essencial: a liberdade do indivíduo, sua plena consciência e inserção no palco da vida como protagonista, politizado, realizador e atuando em prol não apenas de si mesmo, mas do interesse coletivo. Queria que os homens fossem capazes de ler, não apenas materiais impressos colocados diante de seus olhos, mas de ler, compreender, atuar, escrever e reescrever as linhas da história.
 
Ler, segundo Freire, não é caminhar sobre as letras, mas interpretar o mundo e poder lançar sua palavra sobre ele, interferir no mundo pela ação. Ler é tomar consciência. A leitura é antes de tudo uma interpretação do mundo em que se vive. Mas não só ler. É também representá-lo pela linguagem escrita. Falar sobre ele, interpretá-lo, escrevê-lo. Ler e escrever, dentro desta perspectiva, é também libertar-se. Leitura e escrita como prática de liberdade. [ALMEIDA, Fernando José. Paulo Freire. São Paulo: Publifolha, 2010].
 
Os analfabetos brasileiros, da época em que começou a atuar Paulo Freire até os dias atuais diminuíram consideravelmente se levarmos em conta o avanço dos processos de escolarização para os quais tanto contribuíram também seus estudos, críticas e atuação tanto na esfera educacional quanto no poder público (foi Secretário de Educação de São Paulo entre os anos de 1989 e 1991). Ainda assim este desafio permanece, em outras instâncias, entre as quais a exclusão dos bancos escolares, o analfabetismo funcional, a evasão e a desarticulação e despolitização do discurso e da ação do cidadão.
 
Ser humano é saber se perguntar sobre o sentido da vida. A sabedoria da teoria – ou método, ou política – de Paulo Freire está em criar uma situação pedagógico-existencial de fazer perguntas sobre o sentido da vida e como construí-lo ao longo do tempo. Esta não é tarefa apenas individual, nem só coletiva, e não é apenas dos sábios. O sentido da vida se constrói coletivamente, mas mediado pela realidade histórica. A leitura, a escrita, as práticas pedagógicas escolares são um espaço de mediação desta busca de significado, no redemoinho da vida. [ALMEIDA, Fernando José. Paulo Freire. São Paulo: Publifolha, 2010].
 
A ausência de Paulo Freire, não nos permite acomodação e, sim, como queria o educador e o homem, o cidadão do Brasil e do mundo, deve nos provocar e estimular a constantemente repensar a educação, o país, a política, a cultura, as novas tecnologias e tudo o mais. Neste sentido, em primeiro momento, urge reconhecer Freire e sua obra, compreender sua história, pensamento e motivações. Sendo assim, nada melhor como introdução aos passos deste pensador que as letras trazidas por quem com ele conviveu durante vários anos na PUC-SP (seu endereço acadêmico em São Paulo), o professor Fernando José de Almeida que, pesquisador e intelectual maduro e sereno, as traduziu num breve, intenso, contextualizado e indispensável volume, da coleção Folha Explica.
 
Fernando apresenta Paulo Freire da forma como o educador pernambucano defendia que todos pudessem fazer em relação a tudo e a todos, ou seja, como se estivéssemos travando um diálogo com cada um que lê o livro e, ademais, incitando a reflexão constante sobre os temas que lhe eram tão caros. E assim o faz de modo a provocar o leitor resgatando o pensamento freireano a luz dos dias de hoje, realizando a reflexão de forma contextualizada, neste século XXI globalizado, de tecnologias disponíveis e cada vez mais presentes, de consumo em larga escala apesar das preocupações com o meio-ambiente, de políticas nacionais e globais em que o cidadão participa somente quando chamado ou quando lhe convém, ou seja, demonstra-se desinteressado ou desiludido, centrando-se cada vez mais em si mesmo e menos naquilo que é público, coletivo...
 
E, ao fazê-lo desta forma, o autor nos leva ao cerne do pensador e nos convida a ler sua obra à luz de outro tempo para que o resgate do que o fez pensador destacado tenha a repercussão que merece. Pois como nos diz Fernando sobre Paulo e que, para uma visão mais ampla, recomenda-se realizar a leitura desta obra e daquelas do próprio Freire:
 
Se Paulo Freire encantou a tantos foi porque continuamente instava todos a buscarem com indignação, mas com tenacidade, a “desocultação” das sempre novas sutilezas humanas. A educação, a política, a ética, a comunhão, o amor às palavras foram suas rotas. [ALMEIDA, Fernando José. Paulo Freire. São Paulo: Publifolha, 2010].
 
O Legado de Paulo Freire(1/2)
 
O Legado de Paulo Freire(2/2)
 
A Filosofia de Paulo Freire(1/2)
 
A Filosofia de Paulo Freire (2/2)
 
 

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