Tiradentes e o feriado de 21 de Abril: O que se celebra? Que história é essa? Quem foi Joaquim José da Silva Xavier e porque ele se tornou um mártir?
Ó meio-dia confuso,
ó vinte-e-um de abril sinistro,
que intrigas de ouro e de sonho
houve em tua formação?
Quem condena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente?
Na mesma cova do tempo
Cai o castigo e o perdão.
Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados…
[Trecho de Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles]
O desterro (ou exílio) foi o destino de quase todos os rebeldes. Quase todos. A exceção foi aberta apenas para o mais simples e singelo entre aqueles revolucionários. O que eles queriam? Apenas a liberdade. Ousaram sonhar com um estado livre bem no meio daquelas terras que pertenciam a decadente metrópole europeia. Terras estas que há algumas décadas garantiam aos cofres do reino estrangeiro que as dominavam o ouro que sustentava seus luxos e pagava suas contas.

Aquela nação que outrora singrara os mares e tornara-se pioneira no processo de expansão marítima dos europeus vivia do passado de glórias e de uma economia mercantilista a se apoiar em conceitos ultrapassados, como o metalismo, a balança comercial favorável e a dependência extrema em relação às colônias de além-mar que possuía.
O progressivo esgotamento das possibilidades mercantis oferecidas em territórios como o Brasil, cujo extrativismo de madeira nobre e a produção de cana de açúcar já não traziam rendimentos tão altos quanto outrora, por diferentes motivos, fez com que o ouro descoberto pelos emboabas da pobre São Paulo de outrora fizesse a alegria dos portugueses que comandavam estas terras.
Expulsos os tropeiros que tinham vindo do Vale do Paraíba e de outras paragens paulistas, migrantes e imigrantes povoaram rapidamente as nascentes Minas das Geraes em busca do reluzente e farto metal que por ali brotava. Iniciava-se o processo de interiorização da América portuguesa sem qualquer planejamento, o que iria se tornar tônica na história da pátria amada Brasil.
A febre do ouro fez fortunas e da noite para o dia permitiu a andarilhos esfarrapados e aventureiros de todos os cantos do Brasil e de Portugal a viver como reis, comandando legiões de escravos na beira dos rios ou a se embrenhar pelas entranhas da terra. Como não podia deixar de ser, os “donos” da terra, que tinha inclusive certidão de nascimento emitida por um de seus notórios viajantes da primeira visita oficial a este canto do mundo (Pero Vaz de Caminha), resolveram cobrar pedágio, ou melhor, tributos em relação a todo o ouro obtido nas Geraes.
Criaram as Casas de Fundição, estabeleceram a cobrança de um percentual equivalente a 20% daquilo que fosse auferido pelos mineradores e, com isso, fizeram com que surgisse a ira local em função dos quintos dos infernos que tão caro lhes custava.
Sonegar era uma opção. E para isso valia de tudo e ações eram desenvolvidas tanto pelos homens livres quanto pelos escravos. Escondia-se ouro nos cabelos, nas roupas e em qualquer lugar que tornasse possível passar com o dourado metal de forma despercebida perante as autoridades.
Outra era ir à luta, como o fizeram na Revolta de Filipe dos Santos, em Vila Rica, ainda no início daquele ciclo do ouro, no ano de 1720. Revoltas nativistas como aquela ocorrida na futura cidade de Ouro Preto naquele princípio de século XVIII eram localizadas quanto a seus interesses e participantes, não sendo suficientemente organizadas para enfrentar as tropas oficiais, por mais que as tropas e soldados lusos que aqui viviam então também não constituíssem efetivo tão poderoso e estruturado.
A luta encabeçada por Filipe dos Santos, por exemplo, aconteceu em resposta ao surgimento das casas de fundição, a proibição de circulação do ouro em pó e ao controle monopolista do comércio dos mais importantes produtos na região pelos portugueses. Não se pensava ou agia em prol de causas maiores e nobres como a emancipação da colônia em relação a metrópole.
Não existia, nem mesmo, naquele momento (e por todo o século XVIII e boa parte do XIX) um sentido de povo, nação ou de que, de todas as regiões controladas pelos portugueses na América, viria a surgir um país de dimensões continentais como o Brasil.
A opressão da derrama (cobrança ostensiva de impostos por parte de Portugal na região do ouro quanto à produção deste minério, sem considerar que as minas estavam a se exaurir), o esgotamento progressivo dos veios de ouro das Geraes, o evidente empobrecimento da população local e o surgimento neste período de uma camada ilustrada e elitizada de cidadãos locais mudaria o foco da luta na segunda metade do século XVIII.
Famílias de mineradores que enriqueceram e investiram seu capital em terras, gado, comércio e outros negócios acabaram se tornando lideranças locais importantes nas Minas Gerais. Mandavam seus filhos para estudar na Europa e os recebiam de volta como doutores. Estes jovens tomaram contato com os ideais nascentes na Inglaterra e França do período. Era o iluminismo de Rousseau, Voltaire e Montesquieu e os conceitos econômicos da indústria que surgia na terra de Locke e Shakespeare.
Ao voltarem para o Brasil e para Minas traziam na bagagem o sonho da liberdade das Geraes e compuseram forças para se articular contra o domínio metropolitano português. Na composição de forças buscaram também pessoas do povo, que demonstrassem condições de articular mobilizações contra os soldados lusos. Foi então que Joaquim José da Silva Xavier, conhecido pela alcunha Tiradentes, se juntou ao grupo, liderado por nomes como Tomaz Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa.
Entre eles também se encontrava um intruso, endividado com a coroa portuguesa, igualmente Joaquim, tristemente identificado em nossa história como Silvério dos Reis, que vendeu os planos e os participantes para as autoridades em troca do perdão de seus débitos e por reconhecimento num futuro vindouro.
A Inconfidência Mineira tornou-se a rebelião que faria de Minas uma região livre e que poderia, a partir de seu exemplo, levar a outras regiões do país a luta pela liberdade política em relação a Portugal. Rapidamente percebida e desbaratada pelas autoridades a partir da ação de um delator, terminou sem ter começado. Aos traidores de então, que se articularam contra a coroa portuguesa coube então a punição. A prisão, o exílio e, no caso de Tiradentes, a quem todos os outros acusaram como sendo o líder maior desta rebelião sem que de fato o fosse, o castigo maior, a morte e o esquartejamento, a destruição de seu lar e o salgamento da terra onde vivera...
Maldito naqueles dias e por tanto tempo depois, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi resgatado de seu ostracismo com o advento da República e dos ideais que este novo projeto político trazia para o Brasil já independente mas que em seus primeiros anos de pátria emancipada ainda tivera imperadores estrangeiros a lhe comandar.
Eram necessários heróis destas novas bandeiras que surgiam e Tiradentes tornava-se então o mártir (notem que nas imagens dele compostas tempos depois ele aparece com barbas longas e visual que o parecer com Jesus Cristo) que de fato foi em vida e em sua brutal execução. O que se celebra em 21 de abril são a coragem, os valores e o nacionalismo de um homem que representa o povo e o cidadão deste país chamado Brasil.
Referências:
MAXWELL, Kenneth. A Devassa da Devassa. 7ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2009.
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Porto Alegre: L&PM, 2008.
O cmais+ é o portal de conteúdo da Cultura e reúne os canais TV Cultura, UnivespTV, MultiCultura,
TV Rá-Tim-Bum! e as rádios Cultura Brasil e Cultura FM.
Visite o cmais+ e navegue por nossos conteúdos.
Compartilhar
+Populares
Copyright © 1996 - 2013 Fundação Padre Anchieta