Projeto leva aulas de jornalismo à periferia de São Paulo

Iniciativa transforma a vida de jovens que participam de oficinas voluntárias de comunicação


Olívia Freitas Educação

22/07/13 13:55 - Atualizado em 23/07/13 14:30

As jornalistas Amanda Rahra (à esquerda) e Nina Weingrill (à direita) pretendem levar as oficinas de jornalismo para todo o Brasil | Foto: divulgação Notícia da comunidade feita por jovens moradores da própria comunidade. Esse é o propósito da Énois – Agência Escola de Conteúdo Jovem idealizada por duas jornalistas no Capão Redondo, bairro da periferia de São Paulo. O projeto nasceu em 2009 após uma visita de Amanda Rahra a uma ONG do bairro e acabou ganhando maiores proporções, ajudando mais de 100 jovens a se capacitarem com aulas de técnicas jornalísticas para produção de comunicação regional.  

Amanda e sua amiga Nina Weingrill receberam um convite da ONG para oferecer aos jovens frequentadores uma oficina voluntária de jornalismo local com a finalidade de produzir um fanzine. O que era para ser cinco finais de semana, viraram cinco meses, que se tornaram uma redação e uma revista, a Zzine. Na primeira reunião, apareceram apenas cinco jovens, porém, quando se deram conta, tinham mais de 100. “Fornecemos um conhecimento técnico, eles foram recheando com conhecimento local, e criamos a Zzine”, explica Amanda.

A dupla percebeu que os jovens da região tinham potencial para produzir conteúdo, mas faltavam oportunidades. Os resultados positivos das oficinas de técnicas jornalísticas começaram a aparecer: 70% dos jovens aumentaram suas notas na escola, 30% passaram de média 5 em português para 10, 50% foram aprovados no ProUni e hoje cursam uma faculdade. Não restaram dúvidas a elas, a não ser continuar o projeto, que é gratuito. Então, largaram os antigos empregos na redação e se dedicaram ao projeto, imprimiram três mil exemplares da revista e distribuíram no comércio, em ONGs e escolas.

A Énois produziu mais duas revistas: a Zzine na Copa, que fez a cobertura de um campeonato de futebol regional em parceira com a Vivo; e a Na Responsa, que aborda como os jovens podem se divertir sem consumir álcool, essa em conjunto com a Ambev. “Os alunos queriam fazer [um trabalho] bonito para todos e isso criou um desejo de melhora entre eles”, destaca Amanda. A revista Zzine se tornou trimestral com 5 mil exemplares distribuídos nas escolas e a comunidade passou a reconhecer os jovens como repórteres.

Os alunos da escola assistem uma das aulas da oficina sobre técnica de jornalismo hacker | Foto: divulgaçãoAtualmente a Énois produz a revista Na Responsa e a equipe conta com uma repórter, uma editora e uma rede de colaboradores capacitados nas oficinas de técnicas jornalísticas. “O grande patrimônio são os jovens que já formamos e abastecem os nossos canais. Eles produzem e mandam para editarmos”, conta Amanda. Os alunos que formam a rede são de vários bairros da periferia da cidade, como São Miguel Paulista, Heliópolis, Jardim Ângela, Capão Redondo e Brasilândia.

A agência também é responsável pela produção do conteúdo da editoria Cultura de Ponta do site Catraca Livre. O nome é uma referência à cultura divulgada nas reportagens que vem das pontas de São Paulo, feitas pelos “minijornalistas”, como Amanda os chama, geralmente são estudantes do final do ensino médio ou do superior em comunicação. Karoline Maia é um deles, ela conseguiu o primeiro emprego com a Énois e hoje cursa faculdade de Rádio e TV. “O projeto vem ao encontro de vidas e as transformações que acontecem nesses processos são impagáveis. É necessário apresentar ao jovem, sobretudo ao da periferia, oportunidades e alternativas além daquelas que ele já conhece”, considera.

Amanda considera que a grande mídia se afastou dos jovens e que hoje eles têm uma sede de produzir conteúdo. “Eles não se conformam mais em ser o leitor passivo”, acredita. Porém, vê com otimismo a criação de novos canais: “A imprensa está percebendo isso, por exemplo, com o Parceiros do SP do SPTV da TV Globo e com o blog Mural da Folha de S.Paulo”, aponta.

A jornalista também acredita que o impasse está em que os jornalistas da grande imprensa, em sua maioria, são do centro e não sabem como descrever os fenômenos da periferia. “A imprensa está de olho nesse jovem de classe C, porque ele está virando consumidor e produtor de conteúdo por ter acesso às mídias”, opina.

texto2Para Amanda, o jovem não se sente representado na grande mídia, ele quer ver seu local em destaque, ter orgulho de onde mora e produzir conteúdo. Para isso, ela pretende continuar capacitando os jovens da periferia em comunicação. “Queremos que haja rede para que tenha acesso democrático à mídia. A imprensa alternativa pode ser maior que a grande mídia”, avalia.

 

O futuro
Agora a intenção da dupla é espalhar o projeto por todo o Brasil. Estão sendo produzidas videoaulas sobre técnicas jornalísticas feitas por Amanda e Nina para serem disponibilizadas na internet. A primeira será sobre vídeo, depois sobre revistas, blog, redes sociais e outros módulos. Também serão realizados encontros com os professores locais para que possam dar continuidade ao projeto.

Amanda segue de exemplo o Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) – movimento composto por uma rede de correspondentes que ganhou destaque na cobertura ao vivo e online dos protestos pelo país e que propõem um contraponto a mídia tradicional com cobertura feita por pessoas próximas aos conflitos; o intuito é que vire uma rede internacional de jornalismo independente. “"Hoje, os jovens têm acesso à mídia, mas eles precisam ter uma visão mais crítica das mensagens recebidas  –  além de serem capazes de produzir seu próprio conteúdo com qualidade. Acreditamos que, com a formação deles em jornalismo, essas duas coisas serão cada vez mais possíveis”, diz.

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