Oxalá é meu pai

A partir da confluência de diversas culturas, emerge uma religião brasileira


Bruno Fischer Dimarch Educação

12/03/13 13:33 - Atualizado em 12/03/13 13:46

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Quando se pensa em sincretismo geralmente atribuímos este a um processo de confluência de duas religiões. Na Umbanda esse pensamento parece confirmado na identificação de santos católicos e Jesus Cristo com orixás das religiões africanas. Todavia, os elementos agregados nesta religião são ainda maiores.

Como complemento às Leis 10.639 e 11.645 que dispõem sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas, o cmais+ educação traz um breve panorama de uma religião nascida no Brasil.

História

A Umbanda tem cerca de um século de existência. Seu início é marcado pela incorporação de um espírito caboclo em 1908. Os caboclos são manifestações dos primeiros habitantes das terras que passaram a ser o território brasileiro. No dia 15 de novembro daquele ano, o jovem fluminense Zélio Fernandino de Moraes incorporou o Senhor Caboclo das Sete Encruzilhadas, marcando o início de uma religião nova e brasileira (esta se tornou oficialmente o Dia Nacional da Umbanda por meio da Lei 12.644).

Junto aos caboclos, os médiuns dessa religião de incorporação passaram a receber espíritos dos escravos negros que viveram no Brasil, os chamados “pretos-velhos”. Ainda nos primórdios e além das culturas indígenas e africanas trazidas por estes espíritos, se somou o sincretismo religioso (entre os santos católicos e os orixás) que já existia anteriormente. A base moral religiosa que se estabelece é fundamentalmente cristã.

Posteriormente, outras classes de espíritos, chamadas “linhas” ou “povo”, se juntaram aos caboclos e pretos velhos. Em entrevista para o cmais+ educação, o Pai Armando de Ogum, chefe do terreiro Caboclo Itapuarê e responsável pelo Jornal Umbanda Brasil, salienta que cada nova linha traz uma cultura diferente para a Umbanda: a linha das crianças, ligada à tradição de São Cosme e Damião, a linha dos ciganos, traz a cultura do oriente, a linha dos baianos, a cultura dos primeiros brasileiros, a linha dos boiadeiros, a cultura dos brasileiros que viveram no interior do país e a linha dos marinheiros, a cultura da costa brasileira e dos mares. Além destas linhas e suas correspondentes culturais temos também as mães d’água (ou sereias) e, nas linhas de esquerda, mais próximos das energias e paixões mundanas, os exús e pombas-gira.

dsc_0444Pai Armando acrescenta que estas são as linhas dos “mensageiros”, aqueles com os quais se tem contato direto, mas há também as 7 linhas superiores formada por Oxalá (Jesus), Ogum (São Jorge), Oxóssi (São Sebastião), Xangô (São Jerônimo), Obaluaê (São Lázaro), Iemanjá (Nossa Senhora da Conceição) e Ibeji (São Cosme e Damião).

Ainda mais um elemento conflui na Umbanda: a doutrina espírita de Allan Kardec. Paulo Betti e Clóvis Bueno, em seu filme Cafundó, registraram muito bem a força que um homem branco e europeu teve para diminuir a repressão às religiões de incorporação no Brasil. Pai Armando se recorda das diversas vezes que sua mãe, Iracema Albrecht, foi presa por ser a responsável por uma casa de Umbanda. Seu marido era militar e intercedia para liberá-la, mas era conhecido pejorativamente como o “marido da macumbeira” e uma carta oficial informou-lhe que não atingiria patente maior no exército por conta da ocupação de sua esposa.

O cenário atual está consideravelmente melhor que aquele do século XX, mas ainda assim não é comum os umbandistas se assumirem como tal, sendo a alcunha “espírita” mais usada por eles justamente pela maior aceitação social do Espiritismo kardecista.

Música

A música está presente em quase todas as religiões. Os cânticos cristãos em geral se voltam para o louvor a Deus. Na Umbanda, a música também está presente no louvor, mas tem uma outra função específica: conectar os espíritos com os médiuns. Nos terreiros há um grupo de músicos, os ogans, que formam um coro de voz e instrumentos de percussão, chamado “curimba”.

“50% dos trabalhos dependem de uma boa curimba. Se não tiver uma curimba bem afinada, uma boa vibração, você prejudica os trabalhos de desenvolvimento da gira. O médium precisa daquela sintonia. Como ondas de rádio. O atabaque é a linha telefônica e o cântico a voz que sai no aparelho”, esclarece Pai Armando.  

Pai Élcio de Oxalá, que entrou para a Umbanda nos anos 1950, é responsável por uma escola de curimba. Como católico praticante, era membro do coral da igreja durante sua adolescência. Com 14 anos começou a “cantar na noite” pelos bares de São Paulo e também a namorar. Foi sua namorada que o levou à Umbanda. “Ela me falava da Umbanda, mas eu tinha muito medo, porque o pessoal dizia que era perigoso, que tinha coisa ruim, demônios” se recorda Pai Élcio. Com alguma insistência, ela o convenceu a ver uma cerimônia. A religiosidade e a música chamaram sua atenção e ele passou a frequentar o terreiro em segredo. “Um dia eu conheci um terreiro [diferente daquele que frequentava com sua namorada], meio sem saber por que eu estava lá. Então veio uma preta velha e me falou: ‘a partir de hoje começa uma nova missão pra ti’. Era a missão de cantar na Umbanda. Depois disso, eu comecei meu trabalho numa casa chamada ‘Centro de Umbanda Padre José de Alencar’”.

dsc_0770Em 1958, Pai Élcio parou com os trabalhos musicais noturnos nos bares e se dedicou com afinco à música religiosa e se tornou Filho de Santo. No início, não sabia muito bem como era ser ogan. Apenas com o tempo aprendeu que cada ponto (cântico) emana uma vibração própria e, portanto, os diversos pontos configuram funções específicas nos trabalhos. “Um ponto cantado é uma prece. Para se ter um entendimento melhor, se eu quero falar contigo, eu te ligo. Se eu quero falar com um preto velho, eu faço uma prece para chama-lo”. Além do chamamento, há outros tipos de pontos para diversas atividades no terreiro (como a louvação).

A música exige, portanto, conhecimento específico da religião. Não se pode cantar por cantar. Cada ponto tem o momento certo para ocorrer e a curimba deve estar atenta para que os trabalhos transcorram bem.

Atualmente, Pai Élcio se dedica a treinar ogans, tanto na parte musical quanto na tradição umbandista. Seu trabalho também está registrado em gravações nas quais seu timbre grave e melancólico canta pontos de Umbanda.

Ritualística

“Toda religião tem sua parte ritualística. Na Umbanda não é diferente, há o rito de preparação para os trabalhos. Depois a palavra é dirigida às pessoas, como faz o padre durante o sermão. Mas aqui os consulentes, ao invés de receberem uma palavra geral dirigida a todos, são atendidos individualmente pelas entidades”, explica Pai Armando de Ogum.

As sessões de Umbanda, chamadas “giras”, são iniciadas com rezas e cânticos. É o momento onde o sincretismo pode ser mais facilmente percebido, uma vez que pontos cantados se alternam com orações da tradição católica. Após a ritualística de abertura, os trabalhadores da casa se dedicam a atender os consulentes. Por fim, são cantados os pontos de encerramento e os trabalhos finalizados.

Os consulentes são aqueles que frequentam a casa de Umbanda e não são filhos, pais ou mães de santo. Eles participam das rezas e são atendidos pelas entidades incorporadas nos médiuns.

Indumentária e Adornos

dsc_0752Na Umbanda há muito simbolismo e ele pode ser visto na indumentária e nos acessórios utilizados nas cerimônias cotidianas e, com mais requinte, nas festas dos Orixás. Cada linha tem cores e elementos diferentes para adornar e também trabalhar. O branco de Oxalá, o azul de Iemanjá, o vermelho de Ogum etc., se somam a elementos de seu simbolismo. Por exemplo, em uma festa a Oxóssi, o templo é adornado com plantas diversas, o chão coberto com folhas de boldo e os trabalhadores do terreiro se vestem de verde (cotidianamente a vestimenta é branca). Em festas a São Cosmo e Damião, há brinquedos, doces e decoração com temas infantis.

Cada entidade possui adereços e vestimenta própria. No caso de uma gira de ciganos, os médiuns estarão todos trajados com roupas características da cultura cigana, haverá frutas e música cigana (neste caso específico as músicas não costumam ser conduzidas pela curimba durante os trabalhos). Há colares e pulseiras coloridos, chamados “guias”, que são usados tanto pelos médiuns quanto pelos consulentes, pais, mães e filhos de santo e representam as diversas forças espirituais da Umbanda.

Divergências

A Umbanda é uma religião que se expandiu horizontalmente. Os filhos de santo de uma casa, depois de vivenciar e aprender os fundamentos e procedimentos da religião, podem fundar sua própria casa. Não há uma autoridade superior e reguladora. Mesmo as federações operam mais como forças de união entre os terreiros do que como gestora.

Esta forma de organização, que difere, por exemplo, da estrutura hierárquica da Igreja Católica, engendra algumas divergências entre os praticantes da Umbanda. Há quem pratique a religião sem o som dos atabaques da curimba, foram firmados ritos mais voltados para o lado esotérico da religião, ritos mais ligados ao Espiritismo de Kardec (com destaque para aqueles chamados “mesa branca”), entre outras variações.

Há também divergências conceituais, intepretações diferentes, aproximações com o Candomblé. Os próprios conceitos abordados nesta matéria não são unânimes. Não existe dúvida, por exemplo, que 7 são as linhas da Umbanda, contudo, há diferenças em como elas se dividem.

dsc_0490Pai Élcio lamenta que certas tradições da religião foram perdidas. “Perdemos nossos fundamentos, nossos pontos de raiz. Aquele ponto que, quando você cantava, a preta velha chorava”. Comentou ainda que alguns cânticos já se perderam, assim como certos modos de conduzir a cerimônia. “Nós temos que ter muito cuidado para não banalizar os pontos cantados da Umbanda e resgatar os pontos antigos” afirma Pai João de Ogum, do Centro Espírita Urubatan.

Sobre as divergências, Pai João critica o modo como certas mudanças ocorrem: “a pessoa tem uma ideia nova, escreve um livro, faz um apontamento e pronto, ele é o Pai da Umbanda tal. Então, outro se apropria daquelas ideias e acrescenta ou modifica uma outra coisa e ele é novo ‘dono da verdade’. Depois vem um terceiro ou um quarto que compila as ideias anteriores, faz uma nova alteração e passa a ser a nova autoridade da Umbanda. Mas Zélio Ferdinando de Moraes, por meio do Senhor Caboclo das Sete Encruzilhadas, deixou um legado em palavras simples e objetivas”.

“Nem todo lugar que está escrito ‘Umbanda’ é Umbanda de verdade“, alerta Pai Armando. Há muitos locais que utilizam o nome para vender ajuda. “É preciso parar de ver a Umbanda como casa de Santo Antônio (santo casamenteiro) e casa de feitiço. Você procura uma religião para que? Para cuidar do seu lado espiritual. Ela não é culto nem ciência, é religião e, como as demais religiões, procura mostrar o caminho a Deus”.

Apesar das divergências, Pai Élcio ressalta que hoje há uma maior aceitação da Umbanda, também por força de artistas, músicas e acadêmicos que defendem a religião. Diz ainda que há uma nova geração de espíritos chegando. “Eu vejo hoje um preto velho menos sofrido do que aqueles que vi quando entrei para a Umbanda”, comenta Pai Élcio.

“A Umbanda é uma religião tipicamente brasileira, ritualizada e ritmada para atender todo aquele que vem em busca de uma caridade e de Deus”, conclui Pai João de Ogum. Com pouco mais de um século de existência, esta confluência de diversas culturas e tradições avança para além do território brasileiro. Em Portugal, por exemplo, a religião já começa a conquistar espaço e pode-se ouvir em uma gira de baianos o sotaque característico do povo nordestino no outro lado do Atlântico.

(fotos por Bruno Fischer Dimarch no terreiro Caboclo Itapuarê durante a Festa de Oxóssi)

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