O fim das respostas

Na era da informação, é preciso repensar o papel do professor


Bruno Fischer Dimarch Educação

17/07/12 15:03 - Atualizado em 17/07/12 15:06

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Houve um tempo em que o acesso à informação era algo restrito. Era preciso identificar o local onde estavam armazenados livros ou onde se discutiam determinados assuntos. Uma vez localizado, era preciso se deslocar até o local, consultar os livros ou os pesquisadores, despender tempo, fazer anotações. Dependendo da complexidade do assunto, tal tarefa poderia ocupar dias, semanas, meses ou anos.

Não apenas informação era adquirida nesse processo. O conhecimento se desenvolvia durante a pesquisa, afinal, era preciso organizar as ideias e informações, procurar relações, dar tempo para a mente e trazer de volta consigo o que lhe foi permitido acessar e se apropriar.

Ensinar e aprender estiveram associados à informação e conhecimento. Era comum os professores ditarem os conteúdos ou os alunos precisarem anotar rapidamente suas falas. As pesquisas escolares eram realizadas em bibliotecas públicas ou mesmo no acervo particular (muitas famílias dispunham de enciclopédias, coleções e livros de apoio aos estudos).

Naquele antigo cenário (que ainda permanece em certos contextos atuais), a informação não circulava ou estava disponível facilmente. Hoje, por outro lado, está muito facilitado o acesso à internet. A expansão do acesso às informações na rede é o maior responsável por tal mudança de paradigma, mas também é preciso considerar que as salas de leitura, bibliotecas escolares, bibliotecas públicas e as livrarias tiveram considerável ampliação de acervo e alcance.

Paulo Freire, antes da explosão das tecnologias de informação e comunicação, criticava o papel do professor como aquele que “transfere conhecimento” ao aluno, por ser o detentor dos saberes. Cada vez mais este modelo torna-se insustentável e a tarefa de reinventá-lo assumida.

Certa vez, um professor de filosofia que trabalhou comigo na Secretaria da Educação comentou sobre como desenvolvia suas aulas. Trazia um determinado tema para a aula, que poderia ser trocado por outro que emergisse, procurando criar um ambiente de debate. Até este ponto, podemos observar que a ideia de depositar informação nos alunos não estava em pauta. Os saberes do filósofo vinham à aula como referências e novas provocações pautadas no pensamento de diversos autores.

O ponto que mais me chamou atenção e não pude mais abandoná-lo foi como ele lidava com as inquietações dos alunos. Ávidos por encontrar respostas para seus dilemas juvenis e para as questões propostas nas aulas, questionavam-no para obtê-las. O professor dizia não tê-las, mas que poderia ajudar os alunos a fazer perguntas cada vez melhores.

Na prática esse processo era bem interessante. “Por que tem gente com muito dinheiro e outros sem nada?” poderia ser uma pergunta de um aluno. Por meio do diálogo e do debate, o mesmo poderia chegar a “O que é riqueza?”. Avançando, quem sabe onde se pode chegar? Questões sobre poder, sobre a sociedade, sobre política, sobre a natureza humana,...

A postura do filósofo reflete um aspecto, quiçá o principal, do professor contemporâneo: o papel de mediador. Ele se coloca no espaço entre. Assume o papel de provocador, instiga os alunos, cria situações para a experiência de aprender, mostra caminhos e sugere conexões.

A dinâmica da aula também não se mantém igual. A consolidada ideia de um programa inflexível de aulas, onde cada passo é feito de igual forma ano a ano, não se sustenta em um cenário que considera a interação e participação do aluno. Há um devir inventivo no processo de ensino e aprendizagem, pois permeado de imprevisibilidade e novas possibilidades, ainda que desejavelmente seja parte do planejamento de aulas do professor.

Estar em contato com saberes específicos da área é imprescindível para os educadores, mas os pontos que mais exigem atenção na atualidade estão nas questões didáticas e metodológicas. A dinamização das aulas ocorre incorporando jogos, multimeios, tecnologias digitais e móveis, transformando o espaço de aprendizagem. Mesmo aulas de caráter mais expositivo podem ser elaboradas de modo a considerar intervenções, debates ou outras formas de participação ativa por parte dos alunos.

De certa forma, planejar aulas se assemelha ao processo artístico, onde o professor é um propositor. Os agentes primários no cenário educativo são professores e alunos e a eles se somam os gestores, funcionários, pais e comunidade. A sala de aula não confina as possibilidades de proposição e é possível abrir fendas para além dela.

O professor do futuro está em processo e talvez seu futuro seja justamente manter-se em processo, sem respostas sobre o como ensinar, mas com perguntas cada vez mais interessantes.

 

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