“A Origem” e o pesadelo (ou sonho?): despertos ou insones?

Filme do diretor Christopher Nolan resgata dilemas de Descartes, Platão e de Matrix e coloca em xeque o protagonismo e a própria existência humana.

João Luís de Almeida Machado Educação

15/08/12 15:24 - Atualizado em 15/08/12 15:28

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Acorde! Acorde! Você está sonhando. Volte à realidade. Abra bem os seus olhos...

Renê Descartes, no século XVI já colocara em questão a existência. Perguntava-se se estamos despertos ou insones. Se o que percebemos ao nosso redor são apenas projeções de nosso cérebro ou se lidamos, de fato, com a realidade.

A Alegoria da Caverna, de Platão, mais antiga ainda, pensada alguns séculos antes de Cristo, já parecia de certo modo disposta a nos colocar em dúvida... Vemos apenas sombras projetadas na parede? E se essa "parede" for o nosso cérebro? E se estivermos encurralados, inertes, sonados e tudo o que parecemos viver sejam apenas estímulos elétricos projetados em nosso cérebro?

"Matrix", de Andy e Larry Wachowsky, produzido em 1999, retomava estes filósofos e atrelava o nosso sono eterno ao domínio das máquinas... Parecia alertar-nos quanto ao torpor em que podemos estar vivendo desde já, ligados à internet e desligados do mundo ao nosso redor...

Até Charles Chaplin, em seu imortal "Tempos Modernos" (1936), em hilária sequência na qual seu personagem Carlitos é engolido pelas engrenagens da máquina, parecia nos dizer que a autonomia tão pretendida, de pensamentos e/ou ações pode ser apenas sonho...

"A Origem", que deveria ser chamada de "Inserção", é inteligente quanto à proposta e execução. Há, evidentemente, lacunas e dúvidas que podem comprometer aos olhos dos espectadores as qualidades do filme. A produção é, também, um pouco longa, o que, em tempos de YouTube e Twitter, com públicos ávidos por respostas rápidas, pode cansar e desmotivar quem assiste o longa.

Mas a temática está de volta... Vivemos sonhos ou realidade? O que vemos é obra de nosso cérebro, grande arquiteto que desenha e projeta cenários, pessoas, acontecimentos, sensações e tudo o mais? Descartes tinha razão? A Alegoria da Caverna é fato como pensou Platão? Existirá uma "mosca" a perturbar o sono pesado em que nos encontramos, como Sócrates na Grécia Antiga e Neo em Matrix? Quem será o Arauto? Morpheus, da mitologia grega e do clássico dos irmãos Wachowsky, nos fará prosseguir dormindo ou nos permitirá despertar?

origem-4A trama de "A Origem" projeta um futuro (ou presente?) no qual teremos tecnologia para entrar nos sonhos de outras pessoas e induzir os acontecimentos neste cenário para que encontremos dados, informações e conheçamos pessoas ou fatos que nos auxiliem em nossas vidas no mundo real. E isto é utilizado por pessoas e corporações, governos e milícias para burlar os potentes sistemas de segurança existentes fora dos sonhos e também a própria consciência dos interlocutores que pretendem "dobrar" quando dormem e sonham...

Já existem mecanismos que previnem as pessoas, e os poderosos em particular, quanto aos invasores de sonhos... E, para burlar também essa proteção, há o sonho dentro do sonho, que pode ser utilizado até em 3ª instância, iludindo, por completo, até mesmo quem foi preparado para resistir à invasão de seus sonhos...

O "pulo do gato", no entanto, é uma ação possível, de eficácia grandiosa, mas ainda não concretizada por ninguém... A inserção de ideias... Ao invés de se apropriar de informações nestas visitas aos sonhos, a proposta é fazer com que nestas incursões vendam-se ideias, de forma bastante sutil, levando as pessoas cujo inconsciente foi invadido, a pensar que elas mesmas definiram tais pensamentos como seus e não como fruto da ação de outros...

Já imaginaram o que aconteceria com o mundo se isso fosse possível? Será que ainda não é? Ou ainda, será que já não está em curso, como sugeriram Descartes, Platão, Chaplin ou "Matrix"?

"A Origem", do talentoso e polêmico diretor Christopher Nolan (que brilhou com produções como "Amnésia" e "Insônia", além de ter realizado o ótimo "Batman - O Cavaleiro das Trevas", o melhor filme do gênero), estrelado por Leonardo de Caprio (sempre intenso, convincente), com coadjuvantes de qualidade como Ellen Page (de Juno), Michael Caine, Tom Berenger, Ken Watanabe (entre outros) é filme para ser visto mais de uma vez, na busca pelos detalhes que nos escapam, para entender a construção deste sonho fílmico, de ação, velocidade, adrenalina e que, para torná-lo desde já um clássico, filosófico como é, nos atormentarà...

 

Confira também “A Origem” no programa Metrópolis
     

 

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