Aspirações olímpicas brasileiras frustradas em Londres revelam que o país precisa realizar trabalho de base nas escolas para revelar campeões

Chegar ao pódio olímpico é uma grande honra. Na realidade, participar de uma Olimpíada é uma demonstração de qualidade e força. As medalhas constituem a aspiração de todos os atletas de ponta, mas há somente três em disputa em cada modalidade. O ouro, o alto do panteão esportivo mundial, depende de muitos fatores para ser atingido.
O primeiro dia das Olimpíadas de Londres prenunciou uma participação brasileira com resultados melhores que aqueles obtidos ao longo da história desta competição tão especial. Na realidade a abertura já evocara, em espetáculo grandioso, que os jogos se tornariam inesquecíveis para todos aqueles que apreciam o esporte de alto rendimento.
Obter uma medalha de ouro, uma de prata e uma de bronze logo no início das competições permitiu ao Brasil terminar aquele dia inicial de competições no topo do ranking, ao lado dos Estados Unidos e da China, potências do esporte mundial neste século XXI.
O judô e a natação, esportes em que o Brasil já possui um histórico de medalhas conquistadas, garantiu o melhor início de participações do país em Olimpíadas. Fato inédito e inusitado.
Os brasileiros que subiram ao pódio não estavam cotados entre os favoritos a medalhas no país, a não ser entre especialistas, como prováveis vencedores olímpicos. O nadador Thiago Pereira, por exemplo, para conquistar a prata nos 400 metros medley, uma das principais provas da natação mundial e, com isso, igualar-se a Ricardo Prado, que conquistara a mesma colocação nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, superou até mesmo Michael Phelps, o maior vencedor individual da história dos jogos, com 22 medalhas obtidas em 3 edições das Olimpíadas.
Os judocas Sarah Menezes e Felipe Kitadai, que conquistaram medalhas de ouro e bronze, respectivamente, em suas categorias, chegaram a Londres como desconhecidos do grande público brasileiro e se tornaram heróis olímpicos, entrando para a galeria que tem nomes como o de Aurélio Miguel e Rogério Sampaio, vencedores em Seul/1988 e Barcelona/1992.
Um levantamento rápido das participações brasileiras em Olimpíadas, iniciada em 1920, revela que ao longo de todas estas competições, o país conquistou 97 medalhas (contabilizadas as 7 medalhas conquistadas nos primeiros 10 dias de jogos em Londres 2012).
A partir de 1948, nos jogos que também tiveram sede em Londres, o país passou a sempre trazer alguma medalha de volta para casa. Antes disso, somente na Antuérpia, nos primeiros jogos que contaram com brasileiros tínhamos obtido lugar no pódio. Foi uma estreia com brilho, diga-se de passagem, pois a primeira medalha de um atleta brasileiro em jogos olímpicos foi de ouro (com Guilherme Paraense, que também participou da equipe que ganhou o bronze).. Além deste primeiro lugar, ainda nos jogos de 1920 trouxemos uma prata e um bronze, todas nas competições de tiro.
Percebendo, no entanto, o vácuo que se estabeleceu entre 1920 e 1948, notamos que o esporte estava muito distante de ser uma prioridade nacional naquele momento de nossa história. Em 1948 voltamos a ganhar medalhas e, pela primeira vez, em esportes coletivos, com o bronze do basquete masculino.
Na primeira metade do século XX, no ressurgimento dos Jogos Olímpicos, ainda que só tivesse participações registradas a partir de 1920, o Brasil tinha apenas 4 medalhas conquistadas, com apenas um ouro.

Além do esporte não contar com incentivos e investimentos por parte dos governos de então ou de empresas dispostas a patrocinar atletas, numa época em que vigorava, de fato, o amadorismo, os esportistas se dividiam entre estudos ou trabalho e os treinamentos.
Poucas vezes disputavam competições no país ou no exterior. As confederações esportivas ainda não estavam organizadas, nem mesmo os clubes contavam com estruturas que pudessem dar suporte ao esporte amador e, desta forma, permitir que o país tivesse atletas de ponta.
Diferentemente de países nos quais o esporte fazia parte do currículo escolar, como nos Estados Unidos, a educação física, ainda que constasse das atividades regulares de algumas escolas brasileiras, não tinha o viés da competição, apenas o da preparação física.
E é justamente neste ponto que reside o diferencial no quadro de medalhas entre brasileiros e norte-americanos, ou seja, há espaço para que surjam atletas em cada uma e em praticamente todas as escolas de ensino fundamental e médio nos Estados Unidos, apenas para ficar naquela que é a nação que mais medalhas conquistou ao longo da história dos Jogos Olímpicos modernos, resgatados no final do século XIX pelo Barão de Coubertin.
O trabalho de revelação e preparação de grandes atletas envolve desde a seleção dos talentos, passando pela preparação física, alimentação adequada, capacitação muscular e aeróbica própria para cada esporte e, até mesmo, o condicionamento psicológico.
Os treinamentos são duríssimos para quem aspira o topo mundial. As vitórias se alternam com as derrotas. Sacrifícios na vida pessoal são necessários. A superação das deficiências torna-se uma obsessão para treinadores e atletas. Melhoras aparentemente mínimas, que irão resultar em ganhos que para o leigo parecem apenas detalhes, podem ser a diferença entre estar no pódio ou não.
Na natação, por exemplo, a saída e a chegada são consideradas decisivas, em especial nas provas mais rápidas, como os 50 metros livres, especialidade de César Cielo, que trouxe o a medalha de ouro de Pequim/2008 e que, em Londres, terminou em terceiro, conquistando o bronze. Nas piscinas a decisão da medalha se dá, muitas vezes, “na batida de mão”. Isso significa que, por exemplo, o nadador que desliza para bater a mão na chegada tende a perder o ouro, a prata ou o bronze porque a água lhe retardou os movimentos e a chegada, comparativamente com o concorrente que concluiu a prova com o braço chegando fora d’água.
Atletas de ponta treinam muitas horas nas quadras, piscinas, tatames, pistas ou campos e aliam a tudo isso uma rigorosa preparação muscular, adequada ao esporte e ao biótipo que possuem, visando unir força, agilidade, competitividade, capacidade de superação, garra e tudo aquilo que pode fazer a diferença entre vencedores e perdedores.
Os chineses, que se tornaram nas últimas competições olímpicas os novos membros do clube seleto das principais potências olímpicas, selecionam seus atletas de olho no perfil físico dos mesmos. Para a natação, por exemplo, é preciso ter mãos e pés grandes, os principais motores dos nadadores na água, fontes do empuxo que movimenta o corpo nas piscinas.
Para se jogar basquete era preciso ser alto. Hoje este pré-requisito é básico não só para quem joga este esporte. Os atletas do vôlei e da natação estão cada vez mais altos, esguios e ágeis. Corpos magros e bem definidos, braços e pernas fortes, cabeça focada no rendimento e capaz de lidar tanto com a vitória quanto com a derrota são fatores primordiais para os atletas que chegam ao ouro, prata ou bronze em campeonatos mundiais ou Olimpíadas.
Lidar com a pressão da mídia, família, amigos e colegas de equipe ou ser capaz de confrontar os competidores sem se sentir diminuído em relação a eles, ou seja, mostrando-se psicologicamente forte o suficiente para chegar as finais e ganhar medalha é outra preparação fundamental. “Amarelar” na hora decisiva é demonstração de que este aspecto não foi bem trabalhado.
Além disso, não se pode perder de vista que competições como as Olimpíadas ou campeonatos mundiais contam com o que há de melhor em cada modalidade em todos os países do mundo. Deve-se também considerar que o esporte de alto nível conta hoje com patrocinadores e muito dinheiro sendo investido em cada modalidade. Os atletas que ganham medalhas em Olimpíadas e mundiais também recebem do comitê olímpico prêmios em dinheiro pelo pódio conquistado (25 mil dólares para o ouro, 15 mil dólares para a prata e 10 mil dólares para o bronze). Medalhas concorridas como estas permitem contratos publicitários e notoriedade para o resto da vida.
O panteão olímpico almejado pelos brasileiros ainda está muito distante. Estar entre as 10 nações com mais medalhas requer planejamento e toda uma reengenharia no setor. Nossos principais atletas já contam hoje com treinadores de ponta (brasileiros e estrangeiros), dispõe de recursos para treinamentos, dedicam-se de forma praticamente exclusiva ao esporte, têm apoio de especialistas como psicólogos e nutricionistas, participam dos principais torneios mundiais, ganham medalhas, contam com o apoio de patrocinadores, mas ainda são poucos.
Para aspirarmos melhores resultados, temos que contar com projetos esportivos e competições envolvendo as escolas públicas e particulares para que mais atletas de ponta surjam e para que o país faça um papel digno e vencedor como anfitrião dos próximos Jogos Olímpicos, a se realizarem no Rio de Janeiro em 2016.
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