Amor pelos livros

Em palestra, Neil Gaiman defende a obrigação de lutar pelo prazer da leitura


Bruno Fischer Dimarch Educação

22/10/13 11:32 - Atualizado em 22/10/13 11:38

neil-gaiman-001“Vou contar como bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que uma pessoa pode fazer”. Com estas palavras, Neil Gaiman inicia sua palestra para The Reading Agency – organização independente do Reino Unido voltada a fomentar a leitura entre crianças, jovens e adultos.

Gaiman ficou conhecido nos anos 1980 por seu trabalho como roteirista de histórias em quadrinhos para adultos, com destaque para a série Sandman. Sua trajetória conta com obras literárias para crianças, jovens e adultos, roteiros para cinema e letras de música.

Com base em sua carreira, e em sua vida no universo das palavras, das histórias e, principalmente, da leitura, o escritor discorreu sobre as mudanças que a leitura pode provocar. Primeiramente, declarou acreditar que a leitura continua a ocupar uma posição chave na era digital: nós navegamos por palavras e precisamos delas para nos comunicar (e podemos acrescentar que a leitura de ícones e imagens se intensificou também).

A formação de leitores, que possam usufruir da cultura letrada de modo geral, está relacionada com o gosto pela leitura. Gaiman acredita que os primeiros passos nesse sentido não podem ter filtros rígidos de boas e más leituras por parte dos incentivadores/formadores. “Não desencoraje as crianças da leitura porque você sente que elas estão lendo a coisa errada. A ficção que você não gosta é a rota para outros livros de sua preferência”, colocou o escritor. Ademais, diferentes pessoas, ainda que em um mesmo contexto, podem ter gostos bem diversificados. Acrescentou ainda que “adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor pela leitura: impedi-los de ler o que eles gostam, ou lhes dar livros chatos-mas-dignos que você gosta, os equivalentes contemporâneos da ‘refinada’ literatura vitoriana”.

A ficção ainda tem poder de empatia, no qual o leitor mergulha e constrói um universo particular (diferentemente da experiência que as produções audiovisuais para cinema e televisão proporcionam). Essa empatia particular fomenta igualmente a formação de grupos (e conexões) por afinidade.

Neil Gaiman ressalta a relevância da literatura para o desenvolvimento da criatividade. O governo chinês, por exemplo, reintroduziu a ficção científica, antes desaprovada pelas autoridades. Uma delegação enviada aos EUA constatou que os inventores/criadores de companhias como Apple, Google, Microsoft eram jovens leitores de ficção científica. A conclusão dos chineses, reiterada pelo escritor, aponto que o escapismo proporcionado pela ficção fornece ferramentas para interagir com (e reinventar) a realidade.

“Outro modo de destruir o amor das crianças pela leitura, claro, é garantir que não existam livros de qualquer tipo por perto”, continuou o escritor. O acesso a livros e outras mídias é essencial para a formação de leitores, seja por meio de acervos particulares, escolares ou públicos.

Os mediadores cumprem um papel significativo nesse processo: pais e familiares, amigos, professores, bibliotecários, jornalistas etc. Recordo-me de visitar meu tio avô e descobrir que ele tinha uma biblioteca particular (e que ele lera, ainda que não integralmente, todo aquele acervo). Atento ao meu fascínio, ele perguntou qual livro eu iria levar. Disse que não sabia. O Sr. Evaldo insistiu, me inquirindo sobre qual assunto me interessava. Respondi alegremente que gostava muito de Guerra nas Estrelas. “Pronto. Leve este livro!”, exclamou enquanto colocava em minhas mãos O Poder do Mito. Foi desse modo que um garoto de 14 anos leu (e gostou de) Joseph Campbell.

imagesPessoas que gostam de ler são bons mediadores. O respeito ao leitor, independentemente de sua idade ou repertório, também colabora para o incentivo à leitura. Frequentar uma biblioteca (ou gibiteca) infanto-juvenil pode ser muito prazeroso para as crianças e jovens quando há bibliotecários atentos e sensíveis.

O papel da mediação inclui, por outro lado, a filtragem de conteúdo, a localização e indicação de fontes ou leituras correlatas. Gaiman utiliza a seguinte metáfora sobre este aspecto da mediação: se antes era preciso localizar uma planta no deserto quando se buscava informações ou bibliografia sobre determinado assunto, na era digital é preciso localizar uma planta específica em uma grande floresta.

O escritor defende uma série de obrigações que temos com relação à alfabetização, à leitura, à escrita e à imaginação, a lutar politicamente pelo valor da leitura, à nossa relação com o passado, com a linguagem, com a comunicação e com o prazer da leitura.

Na educação formal, esse último aspecto precisa ser melhor considerado. O peso dos “clássicos” da literatura ainda é muito grande. Alunos do ensino médio são estimulados, às vezes exclusivamente, a ler as obras indicadas para as avaliações vestibulares. Muitos de meus alunos eram devoradores de livros, de Paulo Coelho a Caio Fernando Abreu. Eles me indicavam livros e eu a eles (Bram Stoker, por exemplo, fez grande um sucesso e abriu boas portas para a leitura de livros antes os alunos resistiam a ler e depois descobriram prazer em suas páginas). É preciso incentivar a leitura para além das “obras escolares”.

A palestra de Neil Gaiman lança proposições e retoma pontos relevantes acerca do mundo dos livros e nos permite repensar como estimulamos o amor pela leitura, para além das leituras que nos vemos obrigados a encarar, mas como parte constituinte de nossas vidas.

O passo primordial está em nós, em nossa própria leitura. “Eu acredito que nós temos uma obrigação de ler por prazer, em locais públicos ou privados. Se nós lemos por prazer, se outros nos veem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossa imaginação. Mostramos aos outros que ler é algo bom”, defendeu o escritor.

 

Citações de Neil Gaiman foram livremente traduzidas a partir da matéria publicada no jornal britânico The Guardian.

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