Pensar os sentimentos

António Damásio investiga o papel biológico dos sentimentos e seus desdobramentos sociais e culturais


Bruno Fischer Dimarch Educação

05/07/13 16:08 - Atualizado em 10/07/13 14:32

damasio 03À luz baixa, as cordas vibram no dedilhar de temas lusitanos e cabo-verdianos. Cada indivíduo na plateia é afetado de uma forma diferente pela música do violonista Swami Jr.
Os sentimentos se processam nas mentes, gerando imagens e emoções durante a saudação musical.

António Damásio, professor, pesquisador e neurocientista português radicado nos Estados Unidos, durante sua conferência no Fronteiras do Pensamento, chamou a atenção para os sentimentos em nossa mente.

Primeiramente, reforçou sua tese da equivalência entre mente e cérebro, já defendida em O Erro de Descartes, obra lançada em 1996. A mente seria, portanto, o cérebro ativo. Com o fito de ampliar e dialogar com hipóteses, conceitos e pesquisas apresentados por Damásio, traremos excertos de seu último livro publicado no Brasil,  O Cérebro Criou o Homem, (Companhia das Letras).

Um ponto de partida interessante para nos apropriarmos da proposta de equivalência referida pelo autor são suas hipóteses que relacionam corpo e cérebro, posto que “o corpo é o alicerce da mente consciente”. As estruturas cerebrais “são ligadas ao corpo em um sentido literal e de maneira inextricável. Especificamente, estão ligadas às partes do corpo que bombardeiam o cérebro com seus sinais, em todos os momentos, e são por sua vez bombardeadas pelo cérebro, criando assim uma alça ressonante [ressonant loop]” (p. 36).

Esta mente “encarnada” no corpo e centralizada no cérebro é a base investigativa dos sentimentos sob a ótica do autor. Os sentimentos primordiais estariam nas estruturas mapeadoras do corpo. “Eles proporcionam uma experiência direta de nosso corpo vivo, sem palavras, sem adornos e ligada tão somente à pura existência” (p. 37).

Os sinais do corpo transformados em imagens mentais, mesmo que não se refiram a sentimentos, normalmente são acompanhados deles. Dessa forma, as funções básicas da relação corpo/mente são dotadas de grande refinamento graças aos sentimentos, “em vez de, servilmente, apenas produzir mapas do corpo”. Os sentimentos primordiais chamam a atenção do autor por sua existência anterior ao self, à mente consciente, constituindo seu alicerce.

O self refere-se à ação (relação entre o organismo e os objetos), ao conhecimento autobiográfico e à constituição de um “eu social” e um “eu espiritual”.

A regulação da vida, em nível pessoal e social, requer os sentimentos. Dessa maneira, é preciso enfatizar que mesmo outros seres vivos estabelecem uma relação com os sentimentos, uma vez que eles operam tanto em processos conscientes quanto não
conscientes.

A pesquisa de Damásio visa a um grande nível de aprofundamento. Ele já levanta hipóteses acerca dos sentimentos a nivel celular. São pesquisas instigantes que não ignoram o aspecto misterioso dos avanços e novos territórios explorados.

Para adentrar novos domínios dos sentimentos, o neurocientista abordou o processo de homeostase. Biologicamente, esta propriedade de regulação da vida está relacionada ao metabolismo, à obtenção de energia, à manutenção da integridade do corpo, a assegurar a continuidade da espécie e à regulação social. Interessante notar este último aspecto como uma função biológica, pois entra no rol dos recursos necessários, sem os quais a vida (e,consequentemente, a espécie) não teria continuidade.

A meta da homeostase é implementada por meio de programas de ação que resolvem problemas complexos com respostas-padrão, mas elaboradas, que não necessitam de deliberação. Se, por um lado, os programas são inatos, instintivos, por outro, eles podem ser desenvolvidos por meio da aprendizagem (com incentivos, reforços e condicionamento). Dentre uma variedade de programas de ação, Damásio chama a atenção para um grupo em especial, ligado a aspectos emocionais, que envolve: desgosto, medo, raiva, tristeza,alegria, deleite (que podem ocorrer individualmente); e orgulho, admiração, vergonha, desprezo, compaixão (que ocorrem predominantemente em contextos de relações sociais).

Apenas um desenvolvimento mais complexo do cérebro permite a existência dessas emoções. Ainda que existam precursores das emoções (observáveis em outros animais), elas são uma propriedade inerente aos seres humanos.

Na homeostase, uma determinada emoção desencadeia uma série de ações. No caso do medo, há ações preparatórias (no coração, nos pulmões, nas vísceras, secreção de cortisol), comportamentos específicos (como paralisia), comportamentos de atenção
(saliência do objeto causador do medo) e outras estratégias cognitivas específicas. Essa série de ações começa no cérebro em relação e em reação a um determinado acontecimento e se instaura no corpo.

Conforme aponta o autor, “o exame do tema emoção nos leva de volta à questão da vida e valor. Requer que mencionemos recompensa e punição, impulsos e motivações e, necessariamente, sentimentos. Um exame da emoção tem de investigar
os variadíssimos mecanismos de regulação da vida que se encontram no cérebro, mas foram inspirados em princípios e objetivos que antecederam o cérebro e em grande medida funcionam automaticamente e meio às cegas, até que comecem a ser conhecidos pela mente consciente na forma de sentimentos” (p. 140).

damasio 01Os sentimentos desempenham também um papel na homeostase. “Eles são experiências mentais de programas de ação que foram desenvolvidos, expostos em nosso corpo, mas não são os programas propriamente ditos”, afirmou Damásio. Estão relacionados a estados fisiológicos do corpo, como fome, sede e sono e a emoções acima citadas.

Muitas vezes vistos como algo inconveniente, por se ligarem a certas angústias e a sofrimentos, os sentimentos forçam a atenção para condições fisiológicas que os causam, abrem espaço para a aprendizagem frente a situações adversas e vantajosas, permitindo a antecipação de cenários futuros e o planejamento de comportamentos adequados.

“Portanto, os sentimentos não são coisa de luxo, mas absolutamente necessários, e conferem benefícios evolutivos, pois acabam sendo vantajosos para os indivíduos e para a espécie. Eles são sentinelas e motivadores”, acrescentou.
Os sentimentos possibilitam um nível maior de regulação homeostática do que de regulações automáticas mecânicas.

Na segunda parte da conferência, Damásio apresentou sua pesquisa acerca da localização dos sentimentos em determinada área, região ou centro do cérebro. Primeiramente, os sentimentos foram localizados em uma “ilha” escondida abaixo do córtex cerebral.Todavia, seu trabalho com pacientes que sofreram lesão na zona insular identificaram que estes continuaram a ter sentimentos, ainda que de modo prejudicado. As bases neurais dos sentimentos deveriam, portanto, ir para outras regiões.

A continuidade de sua pesquisa apontou para o tronco cerebral superior, pois é ele que nos dá a primeira integração dos estados do corpo e, consequentemente, uma série de sentimentos básicos como sede, dor, medo etc. Os córtices insulares, contudo, permitem um mapeamento mais pormenorizado de estados emocionais em relação ao que o tronco cerebral pode fornecer, e um mapa adequado para interconexão com outros mapas corticais relacionados àquilo que se passa no corpo, na memória, no raciocínio e na linguagem.

Os trabalhos desenvolvidos no laboratório dirigido por António Damásio se aprofundam para a pesquisa dos sentimentos em nível celular, nos circuitos em que os neurônios disparam e produzem resultados em outros neurônios. O avanço nestes estudos neurocientíficos há de impactar diretamente no tratamento de doenças como a depressão, dor e toxicodependências, e patologias dos sentimentos.

O mediador, professor Eduardo Wolf, repassou ao conferencista diversas perguntas da plateia, ampliando o entendimento de alguns dos conceitos referidos no decorrer do evento, enquanto o filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca, debatedor da noite, demonstrou preocupação com a apropriação negativa de tais avanços em áreas como a propaganda e o marketing – para ele o melhor entendimento do funcionamento da mente proporcionou o incremento das técnicas de manipulação dos consumidores.

A esta colocação, António Damásio ressaltou que, simultaneamente, o mesmo conhecimento pode ser usado tanto por manipuladores quanto por aqueles que oferecem resistência à manipulação. É preciso avançar nas pesquisas e sustentar a questão da ética frente aos avanços da neurociência como um debate permanente, concluiu o palestrante, encerrando a quarta conferência da temporada 2013 do Fronteiras do Pensamento São Paulo.


Saiba mais sobre a palestra de António Damásio
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damasio 02Sobre a vida que nos atravessa
As pesquisas de António Damásio instigam
a pensar numa outra possibilidade de indivíduo
e de sociedade

 

Educação  // Fronteiras do Pensamento

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