Diálogos de um revolucionário sexual
“Chama-te ‘Zé Ninguém!’, ‘Homem Comum’ e, ao que dizem, começou a tua era, a ‘Era do Homem Comum’. Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos (...) Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a importantes mal intencionados, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais”.
Estas palavras saem das primeiras páginas de Escuta, Zé Ninguém! de Wilhelm Reich. Escrito no verão de 1946, não foi pensado como um documento científico ou um material para publicação, mas como parte do acervo do Instituto Orgone nos Estados Unidos. Os desdobramentos da história de Wilhelm Reich, no entanto, acabaram dando maior força para seus escritos que acabaram sendo publicados e traduzidos para diversas línguas.
No Brasil, o diálogo com o Zé Ninguém foi levado ao palco no final dos anos 1970, fato incrível dado o momento de repressão instaurado. Com roteiro de Marilena Ansaldi, a peça mescla teatro e dança, as ideias do Reich e depoimentos dos atores. E, ainda que o próprio Reich estivesse representado (na prisão da Pensilvânia aonde viria a falecer), a encenação atinge um público que está além daqueles que conhecem a obra do autor.
Pensando na repercussão da peça, o cmais+ educação traz a resenha de um dos livros mais polêmicos da história da psicologia que, ao mesmo tempo, não é um livro que se debruça diretamente sobre psicologia.
A trajetória de Wilhelm Reich é algo difícil de abordar em poucas linhas, pois a mais marcante característica de sua personalidade era a resistência às instituições. Seus caminhos era resultado de uma busca que partia de inquietações genuinamente suas, que ora encontravam proximidades com outras pesquisas e grupos, ora o impeliam a abandoná-los. Foi o caso, por exemplo, da sociedade psicanalítica de Freud. Reich estudava sexologia e não estava satisfeito com o que as teorias disponíveis e os debates em grupos de estudo sobre o assunto. Então teve contato com a psicanálise e rapidamente encontrou afinidade com as ideias de Sigmund Freud. Ingressou na Associação Psicanalítica de Viena e se dedicou arduamente à pesquisa. Todavia, em um dado momento, começa a se distanciar de Freud, especialmente de suas ideias mais novas como a “pulsão de vida e pulsão de morte”, conforme relata em seu livro A função do orgasmo (no qual relata sua progressão da esfera da psicologia para a biologia).
A história se repete. Se Reich protegia comunistas por suas afinidades com o ideal revolucionário, posteriormente é expulso do Partido Comunista. Os nazistas também quiseram sua cabeça e, finalmente, a democracia estadunidense o levou à morte. O problema é justamente independência e mesmo resistência aos poderes instituídos.
Escuta, Zé Ninguém! é um diálogo de Wilhelm Reich com todos aqueles que deram força à repressão, aos homens e mulheres comuns que, por assumirem sua vida, delegam-na para outros e temem aqueles que não agem da mesma forma (ao ler o livro me veio uma livre associação com as ideias sobre opressores e oprimidos de Paulo Freire). Zé Ninguém quer segurança, por isso aceita o controle instituído, a delegação de poderes ao Estado ou ao Partido, se coloca como patriota, representante do proletariado ou defensor dos bons costumes. “Antes da primeira guerra mundial não havia passaportes internacionais; podias viajar para onde quer que quisesses. A guerra levada a cabo em nome da ‘Liberdade e da Paz’ acarretou consigo o controle de passaportes, que ficou para durar”. Zé Ninguém busca aplacar seu medo e sua responsabilidade, é covarde e evasivo, afinal, o que poderia ele fazer para modificar algo?
Após mais de 100 páginas de conversa, o psicólogo cede e decide responder à pergunta que cala no íntimo represado do Zé Ninguém, ainda que nutra esperança de que sua voz encontre um ouvinte atento:
“Perguntas-me se poderei dizer-te quando saberás viver a tua vida em paz e segurança; a resposta consiste no inverso da tua forma de ser actual: viverás bem e em paz quando a vida significar para ti mais do que a segurança; o amor mais do que o dinheiro; a tua liberdade mais do que as linhas diretivas do partido ou a opinião pública; quando a tua forma de pensar estiver de acordo, e não, como hoje, em discordância , com a tua forma de sentir; quando te for possível reconhecer os teus dotes a tempo e reconhecer a tempo o teu declínio, a tua velhice; quando te for possível viver o pensamento dos grandes homens em lugar dos crimes dos ditos grandes guerreiros; quando os professores dos teus filhos forem mais bem pagos que os políticos; quando tiveres maior respeito pelo amor entre um homem e uma mulher do que por um certificado de casamento; quando puderes puderes reconhecer os teus erros reflectindo a tempo, e não demasiado tarde, como o fases hoje; quando sentires que o teu espírito se engrandece conhecendo a verdade e as formalidades te inspirarem horror; quando comunicares directamente com os teus camaradas de trabalho, não mais tendo diplomatas por intermediários; quando a alegria que a tua filha adolescente possa encontrar no amor for também a tua alegria, e não motivo da tua cólera (...) Pedes orientação e conselho, Zé Ninguém. Quantas vozes, boas e más, se ergueram, pelos séculos, em resposta... Não é porque delas careças que permaneces na desgraça; é a tua própria mesquinhez que te condena. Também eu poderia aconselhar-te, mas sendo como és e pensando como pensas não seria capaz de pôr em acção o que quer que te fosse aconselhado no interesse de todos”.
Reich não escreveu estas palavras para seus contemporâneos, mas para leitores do futuro, como nós, e àqueles que ainda virão.
Assista um trecho do espetáculo Petit Homme, uma livre adaptação de Escuta, Zé Ninguém! apresentado no teatro Aux Mains Neus, Paris, 2008.
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