Bem-vindo ao deserto do real (parte 3)

A queda das torres gêmeas sob a ótica de Slavoj Žižek


Bruno Fischer Dimarch Educação

13/09/12 15:59 - Atualizado em 13/09/12 16:18

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Tenho duas pílulas em minhas mãos, uma azul e uma vermelha. Qual você escolhe? Em Bem-vindo ao Deserto do Real!: cinco ensaios sobre o 11 de Setembro e datas relacionadas, Slavoj Žižek traz um interessante relato logo em sua introdução: um alemão vai à Sibéria a trabalho e combina que, para driblar a censura, escreverá em azul as cartas com informação verdadeira e em tinta vermelha as falsas. Passado um mês chega aos amigos alemães uma correspondência em tinta azul: “Tudo aqui é maravilhoso: as lojas vivem cheias, a comida é abundante, os apartamentos são grandes e bem aquecidos, os cinemas exibem filmes do Ocidente, há muitas garotas, sempre prontas para um programa – o único senão é que não se consegue encontrar tinta vermelha”.

Žižek  nos convida a refletir se nós não estaríamos carentes de uma tinta vermelha que nos permitiria expressar as inverdades e não-liberdades de nossa vida. Na carta estão expostos valores liberais, símbolos da liberdade presentes em conflitos da atualidade: “guerra contra o terrorismo”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos”, “liberdade de pensamento”, etc. O que é curioso, conforme nos coloca Žižek, é o fato de que “a lógica oculta é evidentemente a mesma que está por trás da escolha imposta: você tem a liberdade de escolher o que quiser desde que faça a escolha certa”.

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O 11 de setembro é um caso emblemático. Os EUA se colocam como os heróis que carregam a bandeira dos conflitos do presente em luta contra o Mal nos mais diferentes territórios. O atentado terrorista que derrubou as torres gêmeas foi fundamental para o fortalecimento deste posicionamento. Uma cena hollywoodiana, registrada e veiculada em linguagem cinematográfica, como um trecho de um filme catástrofe. Um registro e não uma ficção. A “paixão pelo Real” encontrou seu apogeu, se desenhou um espetáculo mais realista que os reality shows, onde os participantes acabam sendo personagens de si mesmos. A eficiência espetacular mostra um EUA vulnerável, vítima apesar de sua luta em nome da democracia e liberdade, afinal, “a realidade é a melhor aparência de si mesma”.

Há uma longa lista de países que atravessaram (e atravessam) sofrimentos maiores (em escala, duração, complexidade) que o 11 de setembro, “mas a população não teve a sorte de ser elevada pela mídia à categoria de vítimas sublimes do Mal Absoluto”. Amparados por sua tragédia, os EUA obrigaram seus aliados a ajudá-los (especialmente os europeus) na guerra contra o terrorismo. O primeiro episódio foi a iniciativa contra o Afeganistão, país que o próprio governo estadunidense fortaleceu militarmente durante a época em que a Rússia representava o Mal. Foi como chutar o oponente quando já no chão, uma vez que a situação do Afeganistão já não era das melhores. A luta empreendida pelos heróis contra o Mal, perpetrada pelos arautos da liberdade, era desproporcionalmente aterradora. “Há muito mais loucura ética no planejamento e execução estratégicos de operações de bombardeio em longa escala”, ressalta Žižek.

Na sequência tivemos a invasão do Iraque, lamentável sob diversos prismas. Judith Thompson, um dos principais nomes do teatro canadense, transformou em dramaturgiaeste episódio por meio da história de 3 personagens: a ativista comunista, que ressalta como a CIA levou Saddam Hussein ao poder e a dureza de seu regime; o cientista britânico que publicou um relatório afirmando não existirem armas nucleares no Iraque; e a militar estadunidense que publicou fotos na internet humilhando iraquianos (tratando-os como cachorros, por exemplo).

Há muita obscuridade por trás do caráter heroico estadunidense. Onde estaria a luta pela liberdade em países como a Arábia Saudita ou o Kuwait? São monarquias conservadoras que permanecem intocadas por seu papel (indústria do petróleo) no capitalismo ocidental. “A posição ‘pervertida’ dos verdadeiros ‘fundamentalistas’ dos regimes árabes conservadores é a chave das charadas (geralmente cômicas) da política americana no Oriente Médio: eles representam o ponto em que os EUA são forçados a reconhecer explicitamente a primazia da economia sobre a democracia – ou seja, o caráter secundário e manipulativo das intervenções internacionais legitimadoras – quando afirmam proteger a democracia e os direitos humanos”.

A falta de uma tinta vermelha para nos expressarmos frente a essa situação não se refere apenas a advogar uma “causa fundamentalista” ou resistir à “guerra ao terrorismo”. Conforme colocou Žižek, “a posição a ser adotada é aceitar a necessidade de lutar contra o terrorismo, mas redefinir e expandir os termos, de forma a incluir também (alguns) atos dos americanos e de outras potências ocidentais: a opção entre Bush e Bin Laden não é nossa escolha; os dois são ‘Eles’ contra Nós. O fato de o capitalismo global ser uma totalidade significa que ele é uma unidade dialética de si mesmo e de seu outro, das forças que resistem a ele por razões ideológicas ‘fundamentalistas’“ E mais, “na atual ‘guerra contra o terrorismo’, estamos na verdade diante de um choque de fundamentalismos”. O que chamamos, no mundo árabe, de “fundamentalismo” não pode-se considerar verdadeiramente como tal, pois é um fenômeno tanto mais “modernista”, um produto do capitalismo moderno, é “a forma como o mundo árabe luta para se ajustar ao capitalismo global”.

A queda do World Trade Center abriu as portas do “Deserto do Real” dos irmãos Wachowski para a vida real. A paisagem obscura apresentada por Morpheus a Neo se equipara às imagens de destruição em Nova York. Os grandes consumidores de reality shows, em sua “paixão pelo Real”, receberam a maior dose de “verdade” possível.

Tal paixão é, por um lado, perigosa, pois a ficção possui sua função psíquica, precisamos do aporte da fantasia. Por outro lado, “não se deve tomar a realidade por ficção”, pois na busca de encarar uma “realidade real”, podemos acabar por experiencia-la como fantasia: “exatamente por ser real, ou seja, em razão de seu caráter traumático e excessivo, não somos capazes de integrá-lo na nossa realidade (no que sentimos como tal), e portanto somos forçados a senti-lo como um pesadelo fantástico”, ressalta Žižek, ancorado especialmente na teoria psicanalítica de Jacques Lacan.

O pensador esloveno avança ainda mais: “Deve-se então rejeitar a ‘paixão pelo Real’ em si? Definitivamente não, pois, uma vez adotada essa postura, a única atitude que resta é a de recursa de chegar até o fim, de ‘manter as aparências’. O problema com a ‘paixão pelo Real’ do século XX não é o fato de ela ser uma paixão pelo Real, mas sim o fato de ser uma paixão falsa em que a implacável busca do Real que há por trás das aparências é o estratagema definitivo para evitar o confronto”.

Slavoj Žižek é notável em sua habilidade de articular ideias. Os ensaios que compõe seu livro trazem polêmicas, como a famosa frase “com essa ‘esquerda’, quem precisa de direita?”, o pensamento complexo de sua abordagem de Lacan e Hegel, incursões no universo cinematográfico e análise política, tudo permeado de ironia e problematização. Na leitura de Bem-vindo ao Deserto do Real!, ficamos na dúvida se o autor escolheria a pílula vermelha ou a pílula azul das mãos de Morpheus. Talvez escolhesse ambas. Nenhuma. Ou até inventaria uma terceira pílula.

Em uma de suas passagens pelo Brasil, Žižek participou do programa Roda Viva. Confira:

                        

Leia a série completa:
Bem-vindo ao deserto do real

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