A matemática do futebol: Quando 2 mais 2 não são 4

O esporte mais popular do mundo nem sempre tem como vencedor a equipe de melhor campanha e melhores estatísticas, contrariando a lógica.

João Luís de Almeida Machado Educação

23/04/12 16:32 - Atualizado em 23/04/12 16:32

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O ataque mais positivo da competição. Uma das defesas mais seguras e, consequentemente, menos vazadas. A maior porcentagem de posse de bola durante os jogos quando equiparado com os adversários. Sempre o dobro ou mais de chutes a gol quando comparado com seus oponentes. Terminou a primeira fase do torneio com um alto aproveitamento em termos de pontos, com poucos empates e uma ou nenhuma derrota. Além disso, a equipe ainda ganhou o troféu Fair Play, destinado aos mais disciplinados, com menor quantidade de faltas por jogo e reduzida quantidade de cartões amarelos ou vermelhos.

Coloque na ponta do lápis e pense o seguinte. A próxima fase do campeonato irá colocar frente a frente, nas chamadas oitavas de final, os 16 melhores times deste torneio. Na lógica do futebol isso significa que teremos o confronto entre os melhores e os piores, entre estas equipes que passaram a esta nova etapa da competição. O primeiro colocado enfrenta o 16º, o 2º irá pegar o 15º, o 3º terá como adversário o 14º e assim sucessivamente, até que o 8º e o 9º, de campanhas mais parelhas, realizem o último e decisivo jogo.

As campanhas dos participantes trazem, em termos numéricos, dentro da lógica cartesiana, um raio-x que permite olhar para a tabela e, de acordo com estes dados estatísticos, definir que as equipes com melhores resultados gerais (pontos obtidos, mais gols marcados, menos gols sofridos, goleadores no torneio, goleiros menos vazados, mais chutes a gol, melhor pontaria nestes chutes a gol, posse de bola, menor quantidade de cartões...) são as favoritas.

Lógica esta que, certamente, funciona muito bem para a maior parte dos esportes individuais ou coletivos. Equiparar César Cielo e Usain Bolt, por exemplo, nos esportes em que brilham, a saber, a natação e o atletismo, com outros atletas, tendo por base a média de resultados de suas últimas competições faz com que eles estejam na frente dos rankings e sejam considerados como favoritos na maior parte das provas de velocidade em que participam.

Os números das seleções brasileiras de vôlei ou dos times nacionais norte-americanos de basquete, masculinos ou femininos também são indicadores fortes de que tais equipes são fortíssimos candidatos a medalhas de ouro em mundiais ou olimpíadas.

No tênis os jogadores que lideram as estatísticas dos rankings das associações que regulam este esporte no Brasil e no mundo são os maiores campeões da modalidade. Já foi Gustavo Kuerten o número 1 deste ranking, hoje dominado por Novak Djokovic e Rafael Nadal.

Barcelona da Espanha, considerado pelos especialistas como o melhor time de futebol do mundo nesta segunda década do século XXI, liderado por craques do quilate do argentino Messi, e que na última disputa do título mundial interclubes aplicou sonora goleada sobre o Santos, campeão da Libertadores da América, por exemplo, é uma equipe que chega a chutar mais de 20 bolas ao gol adversário em suas partidas. Se não bastasse este poder ofensivo, costuma ter a posse de bola numa proporção que raramente é menor que 60%. Apresenta defesa sólida, que sofre poucos gols, normalmente compensados em dobro por seu ataque mortal. O time, se não bastasse tudo isso, é ainda muito disciplinado e toma poucos cartões amarelos e, menos ainda, vermelhos.

Apesar disso, em recentes disputas pelo Campeonato Espanhol e Copa dos Campeões da Europa, em que enfrentou adversários tradicionais - Real Madri e Chelsea da Inglaterra, respectivamente - mas que neste momento não aparentam estar no mesmo nível técnico do time catalão, veio a ser derrotado. Nos dois confrontos o cenário foi o mesmo, um intenso bombardeio na área dos adversários do Barcelona com mais de 20 chutes a gol por parte do time de Messi e domínio acentuado de posse de bola, com os oponentes chutando cerca de 1/3 de bolas na meta do espetacular time do treinador Pepe Guardiola.

As vitórias do Chelsea e do Real Madri foram apertadas, mas diante dos números e da estatística, comprovam que no futebol, nem sempre 2 e 2 são quatro. Nem mesmo o Santos de Pelé, tampouco a incrível seleção húngara de Puskas em 1954, ou ainda a Laranja Mecânica (apelido dado à Seleção da Holanda) criada por Rinus Michels e liderada por Cruyff em 1974, para tomarmos como exemplo outras máquinas de jogar bola conseguiram triunfar contra esta matemática não tão exata que impera nos campos de futebol do mundo inteiro.

Há casos como o das Seleções Brasileiras de 1978 e 1982 que demonstram com grande clareza o quanto é ilógica e inexata, por vezes, a matemática dos gramados. O escrete canarinho na Copa da Argentina, na década de 1970, terminou o torneio em 3º lugar sem ter perdido sequer um jogo, ou seja, saiu invicta e, ainda assim, não foi campeã. No torneio mundial seguinte, disputado na Espanha, o Brasil fez campanha memorável, liderado por craques como Sócrates, Zico e Falcão e foi derrotado pela Itália, nas quartas de final. O detalhe é que os italianos haviam se classificado no apagar das luzes da primeira fase, com três empates, enquanto os brasileiros tinham resgatado o conceito de futebol-arte, com vitórias memoráveis naquela mesma fase do torneio e haviam vencido seus arquirrivais e últimos campeões do mundo (com Maradona em campo), por um incontestável placar de 3x1.

O futebol é o esporte mais popular do mundo. A Copa do Mundo, realizada a cada 4 anos, é o torneio esportivo mais assistido do planeta, superando as Olimpíadas e todas as modalidades que nela se disputam. Tem a matemática como uma de suas bases, ainda que não pensemos nisso quando os jogos estão acontecendo, mas que está lá, certamente está. Seja nas estatísticas, nos números que parecem indicar os prováveis vencedores, ou ainda no formato e dimensões do gramado, na quantidade de jogadores envolvidos, nos esquemas táticos (definidos por números como 4x4x2 ou ainda 4x3x3) ou mesmo em expressões típicas do jogo (como passe em diagonal ou bola no ângulo). Ainda assim, por mais matemática e lógica aparente que existam neste esporte, o resultado final, muitas vezes, é imprevisível! Talvez  por isso mesmo o futebol seja assim tão popular mundialmente!

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