A imagem do professor

Como a imprensa engendra discursos contra os educadores

Bruno Fischer Dimarch Educação

14/08/12 15:26 - Atualizado em 14/08/12 15:32

web_89O professor é uma figura de deveres em uma sociedade de direitos. Cada vez mais ele carrega um peso não compartilhado por outros atores sociais. É comum dizer que o país precisa investir em educação, que apenas ela poderá criar as bases para uma nação melhor, mais justa e humanitária, que tanto questões sociais quanto econômicas estão intrinsecamente ligadas à educação. Mas nós confiamos em nossos professores como os agentes deste futuro?

O meio jornalístico parece não apenas desacreditar no potencial dos professores como também estar direcionando o olhar dos leitores. É o que conclui a análise feita por Katia Zanvettor Ferreira sobre jornais publicados no estado de São Paulo de 2007 a 2011. Em diversos contextos, a imprensa parece ter descartado o debate e o confronto de ideias em suas páginas. As matérias publicadas geralmente apontam apenas uma direção e trazem entrevistas com especialista cujas ideias estão alinhadas na mesma direção. Carece, portanto, o panorama de ideias conflitantes e dos diferentes pontos de vista. A matéria não abre espaços para a reflexão, antes, traz respostas unidirecionais, absolutas.

Com a educação não é diferente. São repetidos os mesmos discursos e fórmulas. O olhar é voltado sempre para o mesmo ponto. Faltam posições divergentes. Em seu estudo Quando o professor é notícia? Imagens de professor e imagens do jornalismo, Ferreira mostra como predominam os discursos que instauram uma imagem negativa do professor.

Os professores são colocados, por exemplo, como profissionais despreparados, cuja competência apenas pode ser melhorada com a substituição deles por profissionais mais eficientes. É justificável, por esse ponto de vista, que os professores recebam baixos salários, uma vez que estes equivalem à sua competência. Para aumentar sua renda seria preciso que estes incrementassem sua eficiência ou que os novos (e melhores) professores fossem aqueles que receberiam um salário maior em virtude de estarem mais bem preparados para o ofício docente. Até mesmo o preconceito velado emerge nesse contexto: “dizem que os professores vêm de classes populares e, portanto, são despreparados”, comenta Ferreira.

É preocupante o cenário. São ideias que circulam em meios de grande difusão. A imagem do professor denegrida contribui para a desvalorização da escola e seu papel em nossa cultura. Se tais discursos continuarem a ganhar força e se repetir na grande mídia, teremos prejuízos cada vez maiores, pois além dos desafios que a escola já enfrenta haverá uma “opinião pública” colocada contra ela.

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Acrescentamos ainda a crescente onda dos discursos economicistas sobre educação. Os aspectos inerentes ao processo de ensino e aprendizagem, como as condições ambientais e organizacionais, os recursos para a mediação dos conteúdos, os métodos e a didática, as relações entre professores, alunos, gestores, pais e comunidade etc. são assuntos eclipsados por discursos sobre o capital humano e por dados de pesquisas e avaliações externas que balizam o “debate” e as políticas públicas sobre educação.

Há também uma questão mercadológica que ganha cada vez mais espaço na imprensa. É chamada a atenção para o tema educação por meio de matérias focadas em cursos oferecidos, especializações e outros serviços educacionais que já somam uma grande movimentação de capital. Eles são descritos, as instituições que oferecem são avaliadas e aborda-se o benefício que o curso trará ao estudante.

Diversas são as vezes nas quais o despreparo de jornalistas na abordagem do tema educação é evidente. Há muita opinião superficial sobre um tema de alta complexidade. Parece haver uma confusão entre distanciamento sobre o objeto da matéria com desconhecimento sobre o assunto. Relembremos, por exemplo,como foi a arguição do ex-ministro Fernando Haddad no Roda Vida.

A imprensa detém um poder muito grande nas mãos. É salutar manter-se atento aos discursos por ela engendrados, o modo como as informações são encadeadas e a ideologia que sustenta seu ponto de vista. A imagem pejorativa dos professores que está sendo construída precisa ser modificada e a educação pensada e divulgada por especialistas em educação.

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