David Daniels, criador da técnica "Strata cut" em animação, presenteou São Paulo com uma masterclass no Anima Mundi. “Ele consegue esculpir o tempo fisicamente, através da massinha” (Lea Zaguri, diretora do evento).
O papel de bons educadores na formação de David Daniels, um dos animadores de Stop motion mais premiados do mundo, criador da técnica do Strata cut[1], é incontestável. Sua mãe era professora de escola, o pai era sociólogo e também dava aulas. Foi a mãe quem o presenteou, aos cinco anos, com os primeiros pedaços de massinha de modelar. Aos oito, ele percebeu, ao fazer um bolo de massinha e cortar uma fatia, que o resultado era muito interessante. “Naquele momento eu soube que iria fazer alguma coisa com isso, sabia que aquilo era especial”, conta. “Eu e minhas irmãs crescemos construindo nossa cidade de massinha”, lembra. Veja também a galeria de fotos da aula.
Daniels acredita que o interesse pela cidade de massinha despertou a vontade de se tornar arquiteto. “Eu queria ser arquiteto, fiz essa faculdade e acho que tem tudo a ver com a técnica de animação que eu criei”, opina. “Aos 12 anos eu ganhei um festival de animação da Kodak com o filme ‘O reino dos sapos’ e desde então a vontade de viver disso só cresceu e sempre tive apoio dos meus familiares, hoje sou animador de personagens e sócio de um estúdio de animação”, relata.
Aos 21 anos, enquanto cursava Engenharia, David morou durante dois anos em um furgão e gastava todo o dinheiro que ganhava com massinha de modelar e equipamentos para fazer sua primeira animação[2]. “Eu trabalhava das 12 às 24 horas, em um estúdio quente e barulhento que a universidade apenas cedeu para mim porque ninguém mais queria trabalhar lá”, relembra, rindo e mostrando em um telão as fotos do furgão e do estúdio.
A intenção de Daniels era explicar, na masterclass oferecida durante o Anima Mundi em São Paulo, no último dia 28 de julho, como construir uma animação. “Na técnica do Strata cut, entre a primeira e a última imagem, todas pré-existem no primeiro bloco de massinha”, explicou. “O ângulo da escultura determina a velocidade, enquanto o ângulo do corte determina a forma da animação”, acrescentou. Enquanto ele falava, um bloco de massa que ele tinha construído era fatiado por outro artista e as imagens eram transmitidas em um telão em tempo real. Era uma braçada de um nadador.
Questionado sobre o advento das novas tecnologias e os programas de computador que possibilitam a realização de animações tecnicamente perfeitas, Daniels revela que sempre haverá espaço para bons animadores que usam a técnica de Strata cut e a massinha de modelar. “A animação depende da distorção, é justamente a imperfeição que torna cada trabalho único e não é possível conseguir esse tipo de efeito usando o computador”.
Mas a aula não se restringiu à demonstração do Strata cut. Daniels também mostrou animações feitas com alimentos, como alcachofra, cebola, banana, framboesas, laranja, pêssego e outros. Apresentou também imagens da própria cabeça. “Precisei fazer um exame e acabaram fazendo uma animação com as imagens do meu próprio cérebro, não posso deixar de considerar como um autorretrato”, brinca.
A primeira demonstração realizada por Daniels foi a de um globo ocular piscando. Passo a passo, ele construiu a estrutura em massinha. Enquanto trabalhava, uma filmadora registrava bem de perto e as imagens eram projetadas em um telão. Ao centro, sempre que iniciava uma nova etapa, o animador interrompia o trabalho para explicar e ilustrar com uma caneta, de forma bem didática, o próximo passo, sempre brincando e relacionando o trabalho com sua visita ao Brasil. “Os padrões das calçadas no Rio de Janeiro e também em alguns lugares de São Paulo lembram piscadas”, disse, relacionando os grafismos com a disposição vertical em que as massinhas de modelar devem ficar para produzir o resultado esperado.
“O legal de trabalhar com massinha é este elemento divertido. É como tocar jazz. Você tem uma estrutura, mas ocorrem improvisos no caminho”. Em sua mais recente animação, “Journey to a melting brain” (jornada por um cérebro que se derrete), David Daniels apresenta uma retrospectiva do seu trabalho. Em um deles, nos anos 80, David Daniels construiu uma animação com os números de 1 a 40, para o programa Vila Sésamo. “Fiz em uma garagem pequena, precisei usar uma esteira onde encaixava os blocos de massa conforme cortava, porque não tinha espaço para colocar tudo junto”, lembra. “Ficou muito bom, mas a televisão infelizmente não pode exibir o filme da forma como eu queria, porque incluí números dançando, o que não era bom para crianças disléxicas”, revela. Foram utilizados 300kg de massinha de modelar no filme.
De acordo com Daniels, ele trabalha com formas extrudadas. “É um tipo de engenharia reversa, você precisa ver o movimento de forma escultural”. Uma das formas que ele mais gosta de esculpir é a pirâmide inca. “É uma forma que conta com o suporte da gravidade”.
Na medida em que falava, Daniels manipulava as massinhas e demonstrava sua técnica com maestria. Em homenagem ao Brasil, construiu ali mesmo uma boca dizendo “Obrigado”. “Se eu soubesse antes que vocês não pronunciam a letra ‘o’, teria feito a boca dizendo apenas ‘brigado’, que é como vocês costumam falar, não é?”, brinca.

Ao ser questionado por uma participante sobre como conseguir trabalho nesse mercado, ele achou engraçado. “Era estranho, mas no início fiz alguns comerciais para a TV e também clipes para Peter Gabriel e Michael Jackson”, lembra. Os planos para o futuro envolvem muito trabalho e algumas projeções. “Gostaria mesmo de usar essa técnica com cerâmica e depois cortar com ressonância magnética, seria muito interessante, mas ainda não descobri como fazer”, diz.
Enquanto ocorria a aula, circulavam entre os participantes “fatias” dos trabalhos de Daniels. Ao final, todos foram convidados a levar, como lembrança, pedaços das animações realizadas ao vivo durante o curso. “Costumo reutilizar alguns pedaços de massinha, mas geralmente eu acabo distribuindo os pedaços para admiradores do meu trabalho e, infelizmente, boa parte acaba indo para o lixo depois do uso”, lamenta Daniels.
Veja a animação “Journey through a melting brain” (em inglês) e matéria do Vitrine sobre o festival, com entrevista de David Daniels:
[1] Strata cut, técnica de animação em stop motion desenvolvida por David Daniels, consiste em “fatiar” um grande bloco de massinha de modelar, gerando movimento. A técnica exige, nas palavras do artista, que o movimento seja visto de forma estrutural, como uma engenharia reversa, já que as imagens são construídas de dentro para fora, gerando imagens às quais ele chama de “impressionismo líquido”.
[2] Saiba mais sobre a vida e a obra de David Daniels neste link: http://www.artofthetitle.com/2009/06/01/freaked/ (em inglês).
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Alfred Hitchcock é um dos cineastas mais comentados, biografados e reverenciados de todos os tempos. Ele já foi tratado como um mero empregado dos estúdios, repetindo a mesma fórmula para garantir bilheterias, mas também já foi alçado à condição de gênio, de grande autor, principalmente depois que os franceses da Nouvelle Vague (Truffaut à frente) promoveram uma releitura respeitosa (e quase sempre precisa) de seus principais filmes. Ismail Xavier mostra Alfred Hitchcock como um trabalhador do cinema e um mestre da linguagem ao analisar um momento de extrema criatividade do diretor - Rear Window (Janela Indiscreta) - no qual Hitch relaciona o próprio cinema ao melhor estilo voyeur. No filme, de 1954, James Stewart vive o fotógrafo Jeff, confinado em uma cadeira de rodas em seu apartamento em virtude de um acidente que sofreu. Para passar o tempo, Jeff mune-se de binóculos e espiona o cotidiano dos vizinhos: desconfia da existência de um assassinato no edifício em frente ao seu. Na investigação do suposto crime, Jeff conta com a ajuda de sua enfermeira particular e pretendente amorosa Lisa (Grace Kelly). A proposta de Hitch para a filmagem, confinando a ação ao apartamento de Jeff, exigiu o maior cenário até então montado pela Universal Studios para um longa metragem. Um dado curioso é que o vilão escolhido por Hitchcock - o ator Raymond Burr - é muito parecido fisicamente com o produtor dos filmes de Hitch na época, David O. Selznick. O estilo de Hitchcock, que combina realismo na ação, uma certo maneirismo na construção dos personagens e extrema inventividade na narrativa visual (resultante, antes de tudo, de uma decupagem brilhante e sofisticada), já foi muito copiado, mas, como acontece com obras e autores de exceção, não pode servir de paradigma para ninguém.
Lá na França, antes do cinema ser inventado, um professor chamado Émile Reynaud criou um brinquedo muito legal com um nome bem esquisito – praxinoscópio. Era uma simples latinha com uma tira de papel com desenhos de animais e gente em ação. Quando Reynaud rodava a latinha, os desenhos pareciam estar vivos! Sabe por que? Ele criou uma sequência com tantos desenhos na fita que conseguiu enganar os nossos olhos. Parecia que eram os desenhos e não a latinha que estavam em movimento. Isso tudo aconteceu antes do cinema ser inventado. Mas não foi só isso que Reynaud criou não. Ele queria mesmo era poder contar uma historia animado e isso nao era possível com o praxinoscópio que repetia o desenho toda a vez que a latinha completava um volta. Durante suas tentativas e erros, Reynaud acabou conseguindo criar com sucesso o Teatro Óptico que contava historias curtas e ainda por cima as projetava numa tela ou parede branca ao invés de ficarem dentro da latinha. Era um trabalho danado! Todos os desenhos eram feitos a mão, mas o Walt Disney não desanimou com a enorme quantidade de desenhos que teve que criar para fazer o primeiro filme com mais de uma hora de duração. O publico adorou A Branca de Neve os Sete Anões e ficaram muito impressionados com a qualidade da animação. Há 20 anos, os desenhos são feitos com a ajuda do computador que deixou bem mais rápido o processo de animação e abriu caminho para a 3D com as sagas de Toy Story e Shrek. Não é muito legal tudo isso? No MISSÃO MINUTO DESENHO ANIMADO, TREXCI vai contar um pouco mais pro chefe sobre animação.
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